sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Anjo Derrubado - Capítulo IV

Vesti-me, como se estivesse vestindo outro corpo, como se minha alma ainda estivesse nua. Sair daquele apartamento, entrar no elevador, apertar o botão para ir ao térreo, sair do hotel, entrar no táxi, falar o endereço ao motorista, não falar mais nada ao motorista, pagar e desejar boa noite, abrir o cadeado do portão, a porta de casa, e deitar na cama... não fazia o menor sentido, absolutamente nada disso.
Eu ainda estava lá, no apartamento com Lúcifer e Lilith, com a incômoda sensação de estar deitado em minha cama. Parecia um sonho às avessas, aonde eu sonhava que estava em minha cama, deitado, quando na verdade estava naquele apartamento, que fez alguma coisa comigo, com a minha essência, com a minha alma.

Afirmaria que fiquei acordado até àquela hora, no entanto me pareceu que eu havia dormido, pois o corpo parecia cansadíssimo, como se o houvessem espancado, típico de quando dormimos pouquíssimas horas. Com esforço me levantei e fui até o banheiro lavar o rosto.
É, a noite foi longa mesmo. Nem trocar a roupa conseguiu, meu filho?
A ironia de meu pai geralmente não era bem vinda, e naquele momento a minha ira e o meu ódio tomaram tal vulto que desapareceram, como nos momentos em que a fome alcança tal proporção que deixamos de senti-la.
Tô indo trocar agora.
Troquei de roupa, tomei café, e fui dormir.
Vai dormir de novo!?
Tô cansado e tô de férias.
Vida difícil essa de professor...
O senhor poderia fechar a porta, por gentileza, quando se retirar?
O limite da frieza coincide com o limite da loucura. Quando estamos no limiar do desequilíbrio, prestes a mostrar o nosso lado mais sombrio, a um passo da insanidade, a frieza e a educação com que nos dirigimos à pessoa é algo no mínimo notável.
Um sono estranho, pouco reparador, e sem sonhos.
Assim que me levantei pela segunda vez naquele dia, após lavar o rosto e recuperar o máximo de sobriedade que consegui, meu celular tocou. Um número que eu não conhecia.
Quem é?
Lúcifer.
Como conseguiu o meu número?
Poucas coisas nesse mundo não estão ao meu alcance conseguir, e o número do teu celular não está entre elas.
Pela resposta, só poderia mesmo ser Lúcifer.
Encontre-me no mirante hoje de tarde. Gostaria que nossa conversa, que para mim será repleta de nostalgia, tivesse ao menos uma paisagem agradável.
Que horas?
Almoce e vá.
Desligou, sem as típicas despedidas nossas, que diversas vezes cumprem antes um papel social e mecânico, carecendo de sinceridade e afeição, como tantos outros atos humanos.

Banho... ah, o banho! Depois de tudo que havia passado, a água correndo pelo meu corpo era antes mãos angelicais que acariciavam minha alma fatigada. Não era a sujeira das ruas da cidade, o suor do corpo e as células mortas que a água levava embora, mas sim a sujeira da estrada da vida, o suor da alma e os conceitos mortos é que desciam devagar pelo ralo, junto com o pó do caminho. De olhos fechados eu deixava a água cair sobre meu rosto, descendo vagarosamente por todo o corpo. Subitamente senti uma paz inenarrável, seguida do desejo de partilhá-la com Eva, abraçá-la, protegendo-a de algo que pudesse entristecer ou ferir a minha irmã. Então me lembrei de Lilith, e quis abraçá-la também, dividir aquela paz com ela, pois a imagem que se fixou em minha mente foi o momento em que me fitara com ternura e tristeza. Porventura podeis avaliar o impacto que a tristeza de um anjo causa em uma alma humana? Lilith...
Gabriel, a Eva tá te esperando.
A voz de meu pai me puxou de volta à realidade, com tal ímpeto que a melancolia deu lugar à ansiedade, quase instantaneamente
A uns quinze minutos.
Ah, a sutileza do meu pai! Sempre fascinante. Todavia, como Eva já me conhecia a anos, o banho demorado não era novidade para ela. Apressei-me unicamente em função da ansiedade em revê-la, que me assaltou como jamais havia feito até então.
Eva!
Biel!
Um abraço longo. Senti seu perfume, seus braços que me puxavam ligeiramente para junto dela, seu corpo que pressionava o meu suavemente, as batidas de seu coração.
Que que houve, Biel? Seu coração tá disparado.
Emoção em te ver.
E sorri, como quem fazia uma brincadeira. Que maneira melhor de disfarçar um motivo, senão contando-o de maneira jocosa?
Ah, deixa de bobeira!
Então ela me fitou nos olhos.
Biel, tem alguma coisa acontecendo sim. Você tá com um olhar diferente.
Mentir para Eva era algo quase impraticável.
Maninha, queria te contar, mas fico sem graça.
Maninha. Era ela ouvir essa palavra, que seu olhar passava imediatamente a ser de uma doçura infinita.
Ah, então deixa pra lá, maninho. Mas cê não tá bem, né?
Mas vou ficar. Se preocupa não.
Abraçou-me novamente.
Sabe que eu te amo, né?
Meus braços se afastaram um pouco dela, e quase dei um passo pra trás. Até ali, fui em parte bem sucedido em disfarçar o estranho sentimento que se apossou de mim quando eu a vi. Até ali.
Que que houve, Biel?
Trazia seu olhar consternado, entristecido, como se eu houvesse rejeitado algo valiosíssimo que ela me oferecia. E era exatamente o que eu fiz.
Me perdoa, Eva. Não é contigo, é que... eu... me perdoa.
Abaixei a cabeça.
Com a mão direita sobre minha face, ela ergueu minha fronte.
Tá tudo bem, Biel.
Seu olhar trazia tal tristeza, que me fez recordar de Lilith. Lilith eu não podia ajudar, mas não permitiria que minha mediocridade deixasse minha irmã daquela forma.
Com as duas mãos sobre seu rosto, eu a trouxe para próximo de mim. E osculei-lhe a testa, num gesto que fizera inúmeras vezes, com o qual Eva era fascinada.
Me perdoa, maninha. Não sei o que deu em mim, mas já passou. Eu te amo muito, muito mesmo.
Ela sorriu puerilmente, fitou-me nos olhos com indizível alegria, e abraçou-me fortemente, como se tentasse me transmitir alguma coisa. E conseguiu.
Biel, tenho que ir agora, mas se precisar de mim, me liga. Tô preocupada com você.
Tá tudo bem, fica tranquila. Agora já tô bem.
Então ela se virou e foi caminhando em direção à porta, enquanto no meu corpo permanecia a suave impressão de que ela ainda me abraçava.
Tchau Biel!
Tchau Li... Eva!
Oi?
Nada não, tava só despedindo.
Ah, tá!
Sorriu, acenou com a mão, e foi embora.

Assentei-me no sofá, sentindo em mim transitar duas energias muito distintas, como se yin e yang girassem, invertendo suas posições a cada instante.
A doçura de Eva, e a volúpia de Lilith. Se toda escolha implica em perda, Lúcifer me libertar de algo não implicaria em me prender a outro? Abandonar a personalidade que construí até ali não faria as afeições construídas em torno dela ruírem também? Será que tudo que consegui em função dela eram mentiras convenientes? Medo.
Desde que encontrara com Lúcifer, aquela foi a primeira vez que tive medo do que eu poderia me tornar. Do que eu poderia perder. Passei a tremer ante a ideia de me afastar definitivamente de Eva. Ante a ideia de me afastar de todos. De encontrá-lo naquela tarde.
Passei a suar frio, e posteriormente me senti aliviado de ter passado desodorante, do contrário, dado o tanto que suei, necessitaria de outro banho. Mas antes desse pensamento, a agonia se apossou de mim, e creio que a melhor forma de descrevê-la é através de uma metáfora: eu carregava uma rosa cujo perfume me inebriava, no entanto seus espinhos feriam minha mão. Eu desejava ouvir Lúcifer novamente, mas temia o que poderia suceder.

Vem comer, meu filho.
Ao menos um dia, um único dia, eu gostaria de almoçar sem que a expectativa, ou o medo, ou seja lá o que fosse me impedisse de sentir o gosto da comida. Em vão. Novamente eu comia chumbo, e o mais notável: por vezes ele tinha textura de arroz, outras vezes lembrava o feijão, macarrão, às vezes tinha mesmo gosto de comida, mas ao atingir o estômago, ah, não restava a menor dúvida! Chumbo, somente.
Que que houve? Quando a Eva vem te ver cê fica todo animado. Agora taí, com essa cara de bosta.
É porque ela não tá muito legal, daí fiquei meio bolado.
Mentir para o meu pai era mais fácil. E me pouparia de um número considerável de explicações.
Entendi. Aconteceu alguma coisa?
Uns lances meio tensos. Mas vai ficar de boa.
Então tá.
Ou em outros termos, meu pai dizia: “Entendi, você não quer me contar. Não queria saber mesmo”.
O resto do almoço transcorreu no silêncio habitual.
Assim que terminei de almoçar, me senti aliviado de que Lúcifer me disse para encontrá-lo depois do almoço, pois a expectativa começava a me corroer como um verme.
Novamente, meu cérebro não só me levou até o ponto de ônibus, como ainda me fez subir os degraus, pagar o cobrador, girar a roleta, assentar-me, e depois dar o sinal para o ônibus parar no ponto exato. Então pude ouvi-lo: “Gabriel, fiz a minha parte. Agora é você com o Lúcifer”. Claro, claro. Pode deixar a parte tranquila para mim...

Assim que desci do ônibus, numa arritmia perturbadora, eu o vi. Engoli uma saliva tão seca, que uns diriam que chegava do deserto. Ele estava em pé, cotovelos apoiados sobre um parapeito, vestindo um sobretudo preto, que dava um ar aristocrático. Observava a cidade. Obviamente notou a minha chegada, no entanto sequer se moveu. Aproximei-me com as pernas trêmulas, como se chegasse novamente ao Parque Halfeld. Estava articulando uma frase, alguma coisa para dizer para ele.
O que temes?
E virou-se, fitando-me nos olhos, num misto de desaprovação e desdém.
Porventura o que podes perder? Dentre tais mentiras convenientes, quais realmente lhe fazem falta? Já te habituaste de tal forma ao sapato apertado que temes deixá-lo de lado? Ou então é o medo de andar descalço? É o conceito dourado que fazem de ti? Patético.
Então me lembrei de que fora ele mesmo quem me dissera para jamais perder o medo.
Então ele sorriu com desprezo, meneando a cabeça.
Ainda mais patético. Achas porventura que eu aprovaria o medo boçal de um conceito pífio criado pelos homens? Falava de um medo profundo que atinge a alma, não de um receio medíocre que arranha a mente.
Então me lembrei de Eva, das pessoas que me eram caras, enquanto tentava imaginar o que realmente eu poderia perder.
Vai-te, pois no fim, talvez sejas como eles, de fato. E não tenho tempo para perder com pessoas tão...
E olhou para o céu.
Que linguagem pobre, sequer há um termo para designar algo que seja infinitamente desprezível. Adeus, Gabriel, foi um desprazer.
Assim que ele me deu as costas, senti como se estivesse perdendo algo importante. Algo realmente importante. Perdoe-me Li... Eva.
Por favor, espera!
E então voltou-se sorrindo, dessa vez com um ar de triunfo.
Não é fascinante como o imperativo qualifica a ordem e a súplica? Quando tu dizes “espera”, é uma súplica. Se eu digo, é uma ordem.
Consenti em silêncio.
A tarde será longa, como eu disse, então não me interrompa novamente por motivos tão pueris e insignificantes. Agora ouve em silêncio.
Novamente fitando o céu, ele começou a falar.
Quando disse que Lilith e eu éramos muito próximos, e nos amávamos como irmãos, não mencionei que na verdade o grupo que estava sempre junto eram de três anjos. Ele, o mais velho dentre nós, conseguiu posição mais elevada, auxiliando diretamente o arcanjo que vela pela nossa região. O nosso terceiro irmão, que partilha de nosso profundo amor, percebeu imediatamente, não obstante a distância de anos-luz que nos separava, a mudança em nossa energia; primeiramente eu, depois Lilith. Então, provavelmente assim que conseguiu autorização, veio aqui para ver o que se passava. Miguel...
Falava Lúcifer do arcanjo Miguel? Será que... o arcanjo Miguel na verdade era seu amigo?
Lúcifer então voltou-se para mim.
Ele não alcançou o patamar de arcanjo. Por hora. E não era meu amigo. É ainda.
Então me lembrei das pinturas, em que Miguel figura com uma espada, combatendo Lúcifer.
Poucos desenhos conseguiram ser tão inexatos. Miguel lutando? Contra mim? Miguel sempre foi reconhecido dentre os demais anjos por ter assimilado na essência a ideia da defesa. Não crê ele na força de atacar; somente na de resistir. Miguel erguendo uma espada é das imagens mais estapafúrdias possíveis. Tanto mais contra mim. Não somos inimigos, mas sim irmãos. E eu ainda o amo, como meu irmão.
Literalmente boquiaberto, creio ter permanecido nesse estado por largo tempo. Talvez até Lúcifer terminar sua exposição.
Miguel, assim que chegou a este mundo escabroso, notou o que havia ocorrido, e tomou providências. Os meus subordinados que ainda não haviam se corrompidos, ficaram sob tutela dos subordinados dele. Posteriormente, numa conversa que tivemos, Miguel me disse que não deliberaram demover-nos de nosso propósito. Mas tomaram as providências que engendrariam uma mudança radical na Terra. Percebendo ele a inclinação natural do ocidental ao materialismo e ao menosprezo a tudo que diz respeito ao divino, voltou-se para os orientais, que apesar de mais espiritualizados em certos aspectos, permaneciam muito atrasados em outros, como no trato com as mulheres, por exemplo. No entanto, em função das circunstâncias, era a melhor opção de que ele dispunha.
Então Lúcifer parou a explicação, e fitou-me, ligeiramente colérico.
Não consegues mais manter tua concentração em minhas palavras, dada a curiosidade da minha conversa com Miguel. Pois bem, antes de continuar, lhe contarei parte dela, do contrário, temo a necessidade de repetir a história, caso queira me fazer entendido por alguém tão estúpido.
É no mínimo notável que alguém orgulhoso como eu, mesmo ofendido daquela forma, não dissesse nada. Creio que meu bom senso supera meu orgulho.
Assim que senti a energia de Miguel, fui ao seu encontro, ao passo que Lilith disse que sua vergonha era demasiada, e que não desejava vê-lo. Miguel, sabendo disso, esperou-me sozinho, numa pequena ilha, que o homem ainda não havia destruído.
Assim que o encontrei, olhamo-nos nos olhos, a reduzida distância. Miguel cumprimentou-me, com seu gesto habitual: mão esquerda sobre a direita fechada, próximas ao peito, suavemente movidas em minha direção. Repeti o gesto, e sentamo-nos na areia. E ali, sem palavras, entendemos tudo.
Permite-me seguir com o planejamento de Emanuel?
Perfeitamente. Jamais vos perturbaria.
Depois de longos minutos, em que permanecemos nos fitando, sem desviarmos os nossos olhares, Miguel diria mais duas frases, antes da minha partida.
Oscula Lilith por mim. E retorna quando quiseres.
Esta foi a conversa.
Em que momento ele dissera que não deliberaram a vossa mudança?
Não ouviste? Quando disse que permanecemos longos minutos nos olhando? A conversa foi em sua quase totalidade pelo olhar. Miguel verbalizou unicamente o que considerou importante destacar. Do contrário, nosso diálogo seria todo daquela forma.
Fiquei a imaginar a cena, e realmente sua beleza era extraordinária. Num contraste gritante com as pinturas que temos de Lúcifer e Miguel.
Ele, que ficou conhecido como o “Anjo Conciliador”, passou a inspirar as pessoas do oriente, para que modificassem sua postura. Ensinou-os, através da sugestão, o poder de resistir ao mal, a força de não reagir, a fortaleza da serenidade. Aos poucos, logrou algum êxito, e nesse ínterim, Emanuel fora notificado do que sucedia. A Miguel foi dada a direção temporária da Terra, até que Emanuel viesse, e decidisse o que se faria em seguida.
Emanuel seria o anjo responsável pela nossa região? Pensei.
Sim. Arcanjo Emanuel. Diante do quadro que tinha à frente, Emanuel pode avaliar que qualquer mudança na Terra demandaria um tempo expressivo, e talvez, antes que ela chegasse a um ponto de equilíbrio, o mal já teria consumido-a. Uma influência indireta não poderia resolver aquela situação. Então Emanuel utilizou o que talvez seria o último recurso de que dispunha.
Então Lúcifer sorriu, enquanto virava-se para ir embora.
Qual recurso? Perguntei, sabendo que ele deixaria a curiosidade me açoitar por largo tempo.
Sem se virar completamente, ele fitou-me nos olhos, com uma seriedade e respeito que eu jamais vira até então.
Ele desceu, para ensinar diretamente os homens.
Um anjo entre nós. Não, um arcanjo entre nós, certamente marcaria o mundo. Será?...
Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.”
Com os olhos marejados, trêmulo, e com um frio que perpassava toda a coluna, ouvi Lúcifer dizer, antes de ir embora:
Sim, Emanuel marcou o vosso mundo. Sob o nome de Jesus.

domingo, 5 de setembro de 2010

O Anjo Derrubado - Capítulo III

Ela fazia de tudo. De tudo. Era um filme pornográfico no qual ela era a atriz e eu o ator principal. Satisfazia-me de todas as formas imagináveis ou não. É bem verdade que havia algo estranho. O ambiente era só a cama. Sem paredes. Sem nada. Não havia um elo temporal entre as ações. As noções de espaço e de tempo haviam desaparecido. Mas o prazer é inebriante, e prescinde de lógica. Mas quando tal pensamento me incomodou uma vez mais e decidi analisá-lo ainda que mediocremente, entre um orgasmo e outro, percebi que havia algo muito errado, e foi quando Lúcifer apareceu ao lado da cama, com rabo, chifres, pés de bode e tridente.


Estava muito suado, bem como o travesseiro. Não foi necessário olhar para baixo para concluir que seria melhor tomar um banho e me limpar. A visita noturna do succubus seria um prelúdio daquela noite? E a aparição repentina de Lúcifer na sua forma, digamos, humana, seria um presságio? Divagações inúteis.

O café tá pronto, pai?

Meu pai adorava me ver de férias. Sem horário para dormir, sem horário para acordar, sem horário para comer. Ele acharia um luxo um professor ter tanto tempo de férias, se não soubesse o que encaramos dentro de uma sala de aula.

Não sei o que me incomoda mais: se é você todo dia buzinando no meu ouvido que dar aula é uma merda, ou então você todo dia acordando a essa hora procurando café!

O café tá frio.

Segundo lapso de sinceridade. Desse não haveria escapatória.

Porra, cê tá de sacanagem! Cê tá de sacanagem!

Primeiro Lúcifer, agora meu pai. Queira Deus que eu não me habitue a rostos medonhos e a opressões psicológicas.

Foi mal, pai, foi mal! Escapou, não foi pra te irritar não!

Assim como Lúcifer, ele percebeu a sinceridade, ainda que utilizando de meios menos confiáveis.

Esquenta ali no microondas.

O tom carregava certo arrependimento por ter sido mais rude que o de costume. E de fato não agradava ao meu pai agir daquela forma. Optara ele pelo cristianismo e nele se empenhava sem hipocrisia. Não há transformações mágicas.

Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo.

A frase a respeito do microondas fora a última a ser pronunciada. Tomamos o café em absoluto silêncio verbal, mas talvez em função dos últimos dias eu consegui ouvir nossos monólogos mentais, que devidamente ordenados formariam interessante diálogo, de palavras que com freqüência eram pensadas e não ditas.

Perdoa-me, pai, por ter sido sincero na hora errada... e por não ser sincero. Perdoa-me por não te contar a respeito de Lúcifer. Perdoa-me por dia após dia reclamar das mesmas coisas, e não notar teu esforço em manter tudo em ordem.

Entre uma golada de café e uma mordida no pão eu coçava os olhos, mero artifício para que meu pai não notasse que eles estavam marejados.

Perdoa-me, filho, por ter sido rude agora como noutros momentos, por não ser tão bom quanto eu gostaria de ser. Perdoa-me por parecer alheio e não demonstrar minha preocupação com tuas escolhas e aflições.

Estaria meu pai coçando os olhos também?

Estava puxando do peito com muita força, uma força que não era física, mas nem por isso deixava de carregar enorme potencial, e por fim a coragem deu um impulso final. Saiu mais como um vômito, no susto, do que como algo previamente planejado.

Pai... obrigado e desculpa.

Tudo bem filho, tudo bem.

A realidade não comporta ilusões estapafúrdias, como pais e filhos que nesse momento se abraçariam em pranto e diriam: eu te amo! Eu te amo também! Assim como a realidade não comporta demônios disformes e patéticos. Aquelas frases carregavam toda uma história, e para nós aquilo foi um avanço. Um avanço que teve como ponto de partida a sinceridade dum momento. Uma sinceridade que teve origem nos encontros com Lúcifer. Lúcifer engendrou nosso progresso, ainda que pequenino e tímido.

Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons.

No sertão brasileiro acreditava-se que os frutos da lobeira eram venenosos, e segundo uns, até hoje a lenda ainda permanece em algumas regiões, em função dos bois morrerem quando os comiam. Na verdade as sementes desse fruto é que causavam a morte dos bois, pois elas bloqueiam o esfíncter estomacal, impedindo o ciclo normal da alimentação, tendo naturalmente consequências fatais. Descobriu-se posteriormente que o fruto da lobeira possui diversas propriedades terapêuticas, entre outras funções positivas que ele possui, como complementar a alimentação do povo sertanejo, através de uma geleia que é produzida com esse fruto.

Os homens julgaram que o fruto era mau, afinal, aparentemente o era. Os mesmos homens viriam a julgá-lo como sendo bom. Na máxima evangélica eu confio, não confio, entretanto, no juízo dos homens.

Após despedir de meu pai eu saí para caminhar um pouco, aproveitando o ócio daquele mês que infelizmente passaria rápido. Ia margeando o rio Paraibuna, tão fétido quanto da primeira vez em que me recordo de ter passado ali por perto. Mas a vida se encarrega de equilibrar as coisas, e havia uma brisa prazerosa, que deslizava delicadamente pela minha face, ainda que a mesma brisa tornasse pior o miasma que aquele rio exalava. Fiquei rememorando a última conversa com Lúcifer. Era algo simplesmente fantástico. Mas ele disse que por pouco a Terra não falhara. Mas se ele, que fora incumbido de cuidar da Terra, falhara, quem conseguira fazer com que a Terra não falhasse? Ele mencionou que era incomum um anjo tomar do trabalho de outro, mas não afirmou que era impossível, assim como mencionou alguém que tentara o convencer de que o caminho que ele escolhera não era o melhor. Pelo visto esta pessoa falhara, pois Lúcifer ainda permanece em parte humano, no que há de perverso do humano. De toda forma, Lúcifer me falou que me contaria naquele dia o que ocorrera, e as dezenas de imagens de Lilith que me vinham à mente não me permitiam raciocinar claramente a respeito de coisa alguma. Eu desejava ansiosamente encontrá-la, o quanto antes. O que havia em mim de pudor se esvaia a cada passo. Quando deliberei voltar, creio que o pudor se rendera à Lilith também, sabendo da ineficácia de qualquer simulação de um puritanismo que eu nunca tive. Parecia que eu já não mais caminhava, quase corria, como se inconscientemente eu acreditasse que encontraria Lilith quando voltasse pra casa, como se o que me separasse de Lilith fosse a distância, e não o tempo.

É... é impossível!

Parei ao dizer isso.

É impossível que eu ame alguém que sequer conheço.

E nem precisava. Que tolice! Eu sabia que ela era estonteantemente bela, e para mim era tudo. Quando ouvimos falar de uma pessoa, e sabemos que seus dados circulam pela internet, e não de maneira ilícita, mas porque esta mesma pessoa deliberou assim fazê-lo, o que primeiro procuramos? Fotos, naturalmente. A beleza é o que primeiro nos chama a atenção. Se eu reprovo isso? Preferia não opinar, somente analisar, ainda que de maneira superficial. Talvez estivesse me tornando um mero plágio de Lúcifer, buscando em mim a angelitude que eu via nele, pois sabia perfeitamente que a podridão humana que o consumia era a minha essência; o que me faltava era a outra parte.

Repentinamente um desespero se apossou de mim, como se eu chegasse à conclusão de que ainda faltava muito para alcançar minha casa, como se tivesse me afastado demais do porto que era para mim a segurança, e que teria que caminhar demais para regressar. Não era a casa que estava distante, pois em alguns minutos eu lá chegaria, mas o meu lar estava começando a ficar muito distante, e eu não dava sinais de que estava regressando, e sim me afastando cada vez mais...

Andai enquanto tendes luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai.

Eu tremia, e não em função do frio, pois não obstante o inverno, não ventava muito, e o sol estava quase a pino. O corpo estava quente, o que sentia frio talvez fosse a alma.

Enfim ao chegar em casa, fui tomar um banho quente.

Ô Gabriel, precisa disso tudo!? Tá parecendo uma sauna!

Tava com frio, pai.

Pelo visto muito frio, né? E nem tá tão frio assim.

Já tô saindo.

Vem almoçar, enquanto a comida tá quente.

Sim, afinal, se eu esperasse poderia comentar uma vez mais a respeito da temperatura dos alimentos, e certamente se isso ocorresse o final não seria feliz.

De ansiedade para que a noite chegasse me assaltou um profundo pavor do que poderia dali suceder, e duelavam coração e genitália, e o vencedor escolheria se o tempo correria mais depressa ou mais devagar. Um duelo patético, aonde naturalmente não houve vencedor e o tempo assistiu com ironia, ditando seu ritmo indiferente à minha agonia. Estava sem fome, mas consegui terminar o almoço, pois não gostaria de repetir a desfeita de desperdiçar a comida. Parecia chumbo no meu estômago. Aflito, tentava distrair a mente, para que ela não se ocupasse nem com o pavor nem com a volúpia, mas em vão, tudo o que eu fazia era maquinalmente, até mesmo conversar eu o fazia maquinalmente, o que pude comprovar quando um amigo me ligou.

E aí, cara, vamo sair hoje?

Vou sair com uma mulher hoje, cara.

Que isso, hein! Tá pegando?

Não sei, um amigo que vai me apresentar.

Pô, Gabriel, tu já foi melhor que isso, brother! Precisando de neguinho dar idéia em mulher pra ti?

Que conversa ridícula.

O tom foi mais de quem constata, e menos de quem ofende.

Pô, mano, foi mal, era só brincadeira. Mas tá de boa, depois a gente se fala.

Tranqüilo. Foi mal aí.

Duas frases isentas de veracidade e sentido, contrastando com a última, absolutamente sincera.

Tem erro não.

Falou.

Falou.

Não é do meu feitio falar esse tipo de coisa. Sempre tranqüilo, sereno, agradando e engolindo sapo. A troco de quê? De porra nenhuma! Porra nenhuma!!! E as pessoas criando estereótipos, me rotulando disto, ou daquilo, e eu ocupado em mostrar que estão certas! Agora ainda me darei ao luxo do esforço de provarem que estão erradas!? Nem fudeno!!!

Até meu pensamento apresentava certa distorção. Não poderia prever a que nível aquilo chegaria, e infelizmente não estava longe de concluir que chegaria a um nível antes para mim insuportável. Afetos e desafetos estavam para ouvir o que não imaginavam pudesse eu pronunciar. Estaria Lúcifer desatando as amarras que prendiam o meu demônio particular, dentro da minha hipocrisia e da minha carência? Sim, pois futuramente vim a perceber porque me esforçava por me mostrar bom, afável e atencioso. Era mais por mim, e menos pelo outro. Percebia que o outro a mim só recorria no desespero, para encontrar novamente os braços abertos que auxiliariam a se reerguer, para então em seguida se afastar. No entanto, que fazer? Não era melhor ser lembrado de vez em quando, na necessidade, do que não ser lembrado nunca? A sinceridade não colocaria em xeque toda aquela imagem construída nos últimos anos? Que Lúcifer me libertava de algo, era perceptível. O que eu não saberia dizer era se o resultado daquilo seria positivo ou não.

Amei e odiei pessoas conhecidas que me são queridas, pessoas conhecidas que não me são queridas, pessoas desconhecidas que me são queridas e pessoas desconhecidas que não me são queridas. Amei e odiei parte da humanidade e sua totalidade. Amei e odiei Lúcifer. Amei e odiei Lilith. Mas não Deus. Nesse momento odiei a mim, por me ver habilmente adestrado a não ousar odiar Deus. No futuro vim a compreender que era menos por adestramento, e mais pela admiração que adveio por ter tomado contato com o que havia de mais sagrado e nobre em Sua criação: o anjo. Não ousei erguer minha voz a Deus não por medo, medo de não ser perdoado, medo do inferno, nada disso mais importava, mas por respeito, por ver Nele o único que ainda me compreendia, por saber Nele o meu Pai. O nosso Pai. O Pai Nosso.

Para minha surpresa o céu já escurecia e o sol não era mais visível. Melhor roupa, melhor perfume, uns minutos tentando ajeitar o cabelo, o que foi quase inútil, e eis-me à rua, com o coração aos pulos, no qual já não mais havia espaço para amor e ódio. Só havia espaço para Lilith, para aquela noite.

É incrível como o cérebro nos leva praticamente sozinho aonde queremos, quando já sabemos o lugar. Eu disse a ele: cérebro, ficarei pensando em como deve ser a Lilith e em alguma pornografia bacana, e nesse meio tempo você me leva a esse endereço aqui. Mostrei aos olhos, e o cérebro simplesmente disse: sem problemas. Era fantástico. Quando vi já estava no endereço que aparecia no cartão que Lúcifer me entregara.

Pois não?

Tremia.

Ju... Judas... ele está me esperando.

O nome do senhor?

Gabriel.

Eu podia ouvir o telefone que ele segurava tocar, para entrar em contato com Lúcifer.

Primeiro toque. Eu poderia me assentar, colocar algumas dezenas de pessoas em roda, e contar minha vida até ali, umas duas ou três vezes.

Segundo toque. Eu poderia preparar um discurso que falaria ao encontrar a Lilith, e treiná-lo o suficiente para decorá-lo.

Terceiro toque. Esse nem deu tempo de dar a volta no mundo, pois Lúcifer atendeu antes. Mas foi por pouco! Eu cheguei a ver Juiz de Fora no horizonte.

O senhor Judas o aguarda, senhor Gabriel. Por aqui, por favor.

Eu tremia cada vez mais.

O senhor está bem?

Tudo bem, tudo bem.

Ele não acreditou, mas felizmente foi embora e deixou o elevador subir. Lúcifer escolhera o décimo terceiro andar. Agora sim, não só terminei de dar a volta na Terra como conheci cada ponto turístico. Inclusive a muralha da China é mesmo visível da Lua.

Décimo terceiro andar. Lúcifer esperava no corredor, desta vez com uma túnica preta e um olhar sombrio. Parecia um sacerdote das trevas.

Sê bem-vindo, Gabriel. Mas antes, acalma-te. Não quero que conheças Lilith nesse estado.

Eu caminhei trêmulo em sua direção.

Ao chegar próximo dele, ele depositou levemente a mão sobre a minha fronte, e repentinamente me senti sereno, o coração batia no ritmo normal, e a respiração não era mais ofegante.

Com o braço fez um gesto para que entrasse em seu apartamento.

Eu achei que estava preparado para tudo, para a mulher mais estonteante que eu poderia imaginar. Mas não estava preparado para aquilo.

Eva!? O que você faz aqui?

Eu sabia que não era Eva, pois a Eva que eu conhecia não possuía traços físicos tão perfeitos, nem um corpo tão sedutoramente belo. E não tinha no olhar aquela volúpia e nem no sorriso aquele desdém. Eva era minha irmã. Não era filha de meu pai, nem de minha mãe, mas eu a tinha por irmã, e desenvolvi um afeto verdadeiro por ela; lutei comigo mesmo para transcender algumas barreiras.

Que foi, meu irmão?

A voz era repleta de sensualidade e carregada de ironia. Não era Eva. Mas era Eva! Então ela começou a caminhar em minha direção. A parede não estava longe, e um passo para trás foi o suficiente para senti-la esbarrar em minhas costas. Eva tinha agora as duas mãos em meu peito, e inclinou a cabeça suavemente, num gesto que já fizera outras vezes. Eu a abracei confuso.

Então eras tu mesma?

Sim, meu irmão. Eu te amo.

Também te amo, sabes disso.

Não era a primeira vez que ela falava isso, nem eu. Mas era sempre num sentido diverso; um amor diferente.

Não. Hoje eu te amo diferente. Hoje eu te amo naquela cama.

Impossível! Eva nunca seria tão vulgar! Não tive tempo de concluir o terceiro pensamento, pois ela ergueu sua fronte e vagarosamente veio me beijar. Era proposital a demora, para que em mim digladiassem euforicamente sentimento e sensação, por mais tempo. Era linda! Mas era Eva! Mas era linda. Mas era Eva. Mas...

Este é o beijo de Eva? É... indescritível. Eu quis beijá-la novamente.

Que é isso, Gabriel?

Olhou-me surpresa, com o olhar que eu estava habituado, e então percebi que era mesmo Eva.

Perdoe-me Eva, eu, eu...

Então me empurrou contra a parede e... beijou-me novamente, agora de uma maneira totalmente devassa.

Era extasiante e lacerador, ao mesmo tempo. Era como conspurcar algo divino, dos mais sagrados que havia. Eu a sentia como minha irmã, e sabia que aquilo era errado!

Então ela olhou-me novamente com doçura, com as duas mãos em meu peito, para em seguida deslizar a mão esquerda pelo centro do meu tórax, vagarosamente. Passando pelo meu abdômen, ela parou com os dedos no meu púbis.

Não há homem que resista a uma carícia daquela natureza.

Como, como pôde, Gabriel?

Eu olhava para longe, evitando aquele rosto conhecido, enquanto cerrava os dentes com toda a força. Com a mão direita ela me trouxe mais perto dela, e me beijou novamente, enquanto desceu a mão esquerda um pouco mais.

Eva... Eva... eu... eu... a desejo.

É incesto, meu irmão! É pecado!

Era verdade. Mas a verdade já não importava mais. Com sua canhota ela ia acabando com a verdade pouco a pouco, e quando a verdade estava para esvair-se completamente, ela parou, e falou suavemente, com a destra deslizando pelo meu rosto.

Isto é errado, Gabriel. O certo é fazer isso ali.

E me trouxe pela mão junto à cama, que não estava longe.

Éramos três. Meu corpo que era guiado pela Eva, em direção à cama. Meu coração que era esmagado pelo peso dos corpos, que se moviam freneticamente. Minha alma que a cada lágrima derramada sentia mais prazer, e como se sentisse que um estava atrelado ao outro, cada vez mais desejava chorar, para poder gozar cada vez mais também. Nenhum dos três se rendeu. Não porque fossem bons lutadores, mas porque eram fracos demais para derrotar os outros. Quando o coração parecia perder, e junto com ele a alma, Eva gemia baixinho, como se sentisse dor.

Porque, meu irmão, porque está fazendo isso comigo?

E o coração ganhava novo ânimo. A alma dizia para fugir. Mas antes que o corpo aceitasse, Eva deslizava seus seios sobre meu peito, e dizia sensualmente.

Porque está parando, meu irmão? Nesse ritmo levaremos uma semana para o que podemos fazer numa noite.

Assim a noite transcorreu, entre um prazer e uma agonia inenarráveis, que caminhavam juntos. O pecado e o prazer não mais caminhavam de mãos dadas, mas se abraçavam, se beijavam, e a breve momento estariam como Eva e eu... Eva e eu! Ó, Deus! A minha irmã! A minha irmã. A minha irmã... é linda. Tem um perfume inebriante, uma voz capaz de enlouquecer qualquer homem. Sua língua possui algum tipo de veneno, que seda o meu amor por ela. O meu amor... de irmão...

Em dado momento, quando os três pareciam atingir seu limite, Eva falou com a voz chorosa.

Pára, Gabriel!

E ao terminar a frase agarrou-me pelas nádegas e puxou-me contra ela.

Goze comigo, meu irmão!

Eu fiz como ela mandou. Um prazer imenso, nunca antes por mim sentido, que percorria cada parte do corpo. Era como se sentisse mais prazer do que o corpo agüentava. Eu tremia, respirava com dificuldade, e levou alguns minutos para que eu conseguisse concatenar idéias novamente, que fizessem algum sentido. Assim que esse momento chegou, eu comecei a chorar. Inicialmente por ter feito sexo com Eva, com minha irmã. Em seguida, um pensamento me atingiu como um punhal em meu peito, tornando minhas lágrimas amargas de ódio e vergonha. Todo o prazer que eu senti foi substituído por uma vergonha e raiva que também percorreram todo o meu corpo, imobilizando-me por muito tempo.

Eva... Eva... é destra!!!

Virei-me para Eva, agora transfigurada. A mulher que eu via ali em nada me lembrava mais a Eva.

Lúcifer estava sentado sobre uma cadeira, que lembrava vagamente um trono antigo. Ao que tudo indicava, esteve ali desde sempre, observando a nós dois. Lilith estava de pé, ao seu lado, com um vestido vermelho, como se em um segundo tivesse colocado a roupa e mudado de forma. Ambos sorriam com desdém.

E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também.

Nem nós teremos piedade.

Lúcifer pronunciou as últimas duas frases como quem triunfava sobre um verme, como quem elaborou um complicado plano somente para exterminar um inseto, pelo simples prazer de utilizar sua inteligência e perspicácia para melhor mostrar sua superioridade.

Eu vos odeio! Eu vos odeio!!!

Estava nu, com os joelhos e cabeça no chão. Já não sabia mais de que era o choro. Mais uma vez humilhado. Quanto mais desejava não chorar, por já ter chorado tanto, mais chorava.

Então Lúcifer gargalhou. Ele que até então se mostrara tão discreto, agora gargalhava. Era tão alto que poderia se ouvir no prédio inteiro, talvez. Hoje me admiro de ninguém ter ido à porta, para ver o que ouve. Talvez Lúcifer mentalmente os tenha impedido. Não sei. O que sei é que a gargalhada era muito nefasta, era muito escabrosa, era... demoníaca.

Então senti um toque suave em meu ombro, como se alguém que se importa comigo me chamasse silenciosamente. Era Lilith, agora com um semblante lúgubre, que cobria minhas costas com uma pequena manta. O gesto era gentil, chegava mesmo a ter uma ternura velada, um afeto tímido. No seu olhar eu percebi tanta tristeza, tanto pesar, que deixei a cólera que antes me assaltara. Ela se virou e rapidamente entrou num quarto adjacente ao nosso, fechando a porta.

Lúcifer não mais sorria. Trazia agora no rosto a frieza e a calma habituais, no entanto, parecia lastimar a tristeza de Lilith.

A paz corre na alma feito um rio, e o coração a represa. Imagina que fecharam as comportas até a represa atingir o limite, e que após isso quebraram a represa de cima a baixo: isto é o prazer. O prazer é devastador, tudo consome no caminho, a troco da paz. A água corre violentamente, e o espetáculo é de curtíssima duração. Foi isso que eu te mostrei. Mas não basta mostrar-te o prazer que devasta, é preciso também mostrar-te as conseqüências dele. Você precisava sentir tudo o que estava sendo devastado, para sentir aquele prazer supremo. Você precisava saber o que estava perdendo, para jamais alegar que foi iludido. Não oferecemos o mal numa taça brilhante alegando que é o bem. Oferecemo-lo com o prévio aviso de que é o mal, e de que o preço a se pagar é alto. Gargalhei não porque foste humilhado, mas porque apreendeste a extensão da destruição que ocorreu na tua alma, com a tua anuência. Compreendes agora, Gabriel?

Em parte eu compreendia, e não era necessário verbalizar isto. Lúcifer conhecia os meus pensamentos mais ocultos.

Por que tens medo? É ainda o medo da punição pelo seu pecado? Pois te digo que nunca percas este medo, pois ele erigirá uma nova barreira, para que possas destruí-la no futuro e sentir novamente este prazer inebriante. O medo não trabalha contra o mal, mas a seu favor.

Eu estava muito confuso, e meu corpo já não acompanhava tão bem as minhas ordens, nem meu cérebro conseguia com eficácia navegar através das idéias de Lúcifer.

Antes de ires, contar-te-ei uma história: a de Lilith, que passou pelo mesmo que presenciaste hoje, com a diferença de que ela é um anjo.

Poucos dias depois do meu primeiro contato com o mal, aqueles e aquelas que me auxiliavam começaram a me procurar, pois não retornei à nossa casa, como era habitual, mas permaneci na Terra. Lilith, que era, e ainda é a mais próxima de mim dentre tais anjos e anjas, conseguia sentir a minha energia com mais facilidade, e me encontrou antes que os demais. Ao avistar o prédio, ela se lembrou de que ali era um dos antros de perversão dos mais ignóbeis que a Terra possuía até aquele momento, e acreditou que lá eu estivesse na tentativa de trazê-los para o bem.

Então ele inclinou a cabeça um pouco para frente, colocou a mão no queixo, como se fosse cofiar uma barba que não possuía, e riu discretamente.

Tão inocente, pura e meiga... ah, Lilith, se soubesse o que a aguardava, adentraria aquele antro das trevas? Antes de prosseguir devo contar-te um detalhe adicional: antes de me designarem à missão de vir para este mundo maldito, Lilith e eu já nos conhecíamos. Ela possuía uma infinita admiração por mim, e me amava como um irmão, tudo fazendo para me auxiliar. Sabendo do perigo desta missão, ela quis vir comigo, para que meu coração tivesse onde repousar, ante tantas e tantas adversidades que encontraria aqui.

Posteriormente ela me confessou que antes de entrar naquele prédio funesto, percebeu um torpor na minha energia que apertava seu coração. Quanto mais se aproximava, mais repulsa sentia por aquela energia, ou antes, pela minha energia. Quando me viu, teve dois ímpetos: o de fugir, ante a lascívia e a animalidade da cena, e o de me auxiliar, vendo-me partícipe daquela volúpia. Era uma grande orgia, e eu uivava e me movimentava como as bestas humanas que ali estavam, e só quando me virei para Lilith que ela percebeu que eu estava ali por vontade própria.

Endireitei-me em silêncio, e fui caminhando até ela com a nobreza e a sublimidade de um anjo, que me é peculiar; no entanto trazia no olhar um sentimento diverso do que nutri por ela até ali. Ela tremia, e queria recuar. Ao fitar-me, seus olhos se encheram de lágrimas que não caíram naquele momento. Parei diante dela. Fossem alguns dias antes e ela me abraçaria carinhosamente, e me fitaria com um amor infinito. Mas agora ela estava paralisada de medo, e nada conseguia fazer. Comecei a sentir o prazer antes mesmo de tocá-la. Sentir-lhe o medo causou-me uma sensação torpe que inebriou a minha alma. Não porque queria vê-la sofrendo, mas porque eu percebi a sua fragilidade, e percebi que era necessário protegê-la. Ninguém amava mais a Lilith que eu, e ninguém deveria mostrá-la o prazer, senão eu!

Não chegou a aumentar o tom de voz, mas percebi que ela passou a ser ameaçadora, como se um ente divino advertisse da força titânica de que é investido. Só a energia com que pronunciou tais palavras fez-me tremer de pavor.

Aqueles instantes foram cruelmente prolongados por mim, e quando suas lágrimas começaram a correr, eu as sequei suavemente, e deslizei a mão por seu rosto, como tantas vezes fizera. Ela tremia ainda mais, foi quando aproximei meus lábios aos dela e parei a reduzida distância, e sussurrei: não farei nada que tu não queiras, e nem pedirei que fiques contra tua vontade. Ela tremia e chorava, e não se moveu um único centímetro, nem disse uma única palavra. Assim ficamos por um longo tempo, quando me aproximei vagarosamente, e a beijei com ternura. Eu a amava cada vez mais, no entanto era um amor diferente do que sentira até ali, e aos poucos ela sentiu que seu amor modificava-se também. Parecia ser para ela um processo extremamente doloroso, deixar de ver-me como um irmão, para sentir o prazer que eu a oferecia. Foi um beijo longo e maravilhoso, e assim que me afastei para olhá-la, ela depositou o rosto nas mãos, enquanto continuava a chorar. Eu a abracei, com sua fronte sobre meu peito. Então carinhosamente eu ergui seu rosto, e a beijei novamente. Seus olhos, ainda que marejados, estavam lindos como jamais os havia visto, e inebriado fitei-os por algum tempo.

Inclinei-me, em seguida, e tomei-a nos braços, e docemente eu a deitei no grande tapete em que estávamos, um tapete que a volúpia humana criou para que pudessem praticar suas orgias. Contudo naquele dia não eram suas orgias, mas nossa orgia. E me recordo que após despi-la, diante de seu corpo frágil, trêmulo e belíssimo, senti um ódio infinito dos homens que estavam ali, ao ver como subjugavam as mulheres. Tudo o que faziam, e muitos fazem ainda hoje, era auxiliá-las a erigirem barreiras em suas almas, mas jamais auxiliar para que as destruíssem. Torpes como eram, e como são, julgavam o prazer algo inerente ao homem, e proibido à mulher. Quando vejo tantos de vós usardes meu nome para justificar esta postura hipócrita, fico a me perguntar quem é realmente o vil: quem deseja a liberdade, ou os que desejam suprimi-la?

Todavia, a beleza e a candura de Lilith de tal forma inundavam meu coração, que não havia mais espaço para este ódio. Com as pontas dos dedos, escrevia palavras na linguagem do prazer, ao longo de seu corpo. Sentia trincar as barragens de sua alma, e que paulatinamente o rio do prazer encontrava as frestas. Demolir esse muro ignóbil dava-me um prazer infinito! Sentir que Lilith sentia prazer era o meu prazer!

O olhar de Lúcifer era um paradoxo incompreensível: sedento e bestial como um humano; altruísta e amoroso como um anjo.

Os detalhes do que se passou em seguida deixarei a cargo de tua lascívia e imaginação, seguro de que não será difícil traçar um paralelo entre o que acabaste de sentir com o que se passou com Lilith. Agora vai-te, pois o frio prazer que Lilith recolheu de ti reclama o calor dos meus braços.

sábado, 28 de agosto de 2010

O Anjo Derrubado - Capítulo II

Já percebeu que geral coloca a culpa no capeta pelas coisas ruins? Ele deve ficar muito puto!

Talvez, cara. Pode deixar que se eu esbarrar com ele eu pergunto isso.

Se esbarrar com ele!? Cê é muito doido, cara. Vai que ele ouve e resolve aparecer mesmo.

Quem sabe? Talvez aí ele pudesse se defender e contar a versão verdadeira.

Versão verdadeira?

Humrum. Dos livros sagrados que a gente tem, a maioria foi escrita a um tempão, traduzida, retraduzida, e provavelmente modificada de alguma forma.

Isso é.

E tem uma coisa que sempre me incomodou.

O quê?

Será que Deus nunca vai perdoar?

O capeta?

É. Porque Deus criou ele também. Assim como criou eu e você. Se a gente fala que Ele é nosso Pai, também é pai do Lúcifer. Se perdoa a gente, será que não vai perdoar ele? Se sim, por que até hoje não perdoou?

Cara, cê viaja pra caramba! Mas é uma boa pergunta.

É... uma pena que vai ficar sem resposta.

Sem suor. Sem choro. Desta vez o despertar foi tranqüilo. Confesso que achei peculiar sonhar com este diálogo, que precedeu a noite em que me encontrei com Lúcifer.

As horas se arrastavam, e a manhã me convidava a consentir com Einstein que o tempo é, de fato, relativo. De tal forma aquela manhã foi penosa que escrever sobre ela é maçante. A ansiedade ria-se de mim, e dos meus esforços patéticos para me ocupar por mais de cinco minutos. Mas assim como tudo que é bom acaba, o que é ruim acaba também. E após ter revezado entre o computador e a televisão umas cinco vezes, sem me vangloriar de ter opções tão medíocres, a voz de meu pai soou como uma trégua:

Vem comer!

Almocei sem saber ao certo o que comia, conseguindo a proeza de falar menos que meu pai, quando ele era sucinto. Não me recordo bem, eu confesso, mas acredito que isso só seria possível se nosso diálogo se resumisse a monossílabos. Enfim, o que importa é que isso não importa.

Que que tá olhando?

Quer ajuda pra lavar a louça?

Tô duro.

É só pra te ajudar mesmo.

Eu ficaria feliz de ver meu pai rir daquela forma, se não soubesse o que aquilo riso quis dizer. Mas não fiquei muito nervoso, pois como ele era de rir pouco, achei que contribuí para que ele ficasse um pouco mais contente.

É sério!

Precisa não, filho. Vai arrumar lá em cima pra receber o seu amigo.

Será que ele evitou o nome de propósito? Não sei, mas o sorriso sumiu no mesmo instante. O que era natural, pois não era comum meu pai sorrir. Coincidência ou não, resolvi subir e arrumar o terraço, aonde poderíamos conversar sem grandes incômodos.

Em mais de vinte anos a campainha nunca me acertou com tanta força, pois bastou que ela tocasse para que meu coração respondesse numa insana arritmia, e mais forte que a campainha foi minha decepção: era uma outra pessoa que vinha me buscar.

Um amigo meu tá chegando aí.

Quem?

Cê não conhece não.

Tcho ficar aí com cês, cara!

Nem rola. Ele tá querendo conversar uma parada séria.

Pô... sacanagem. A gente se vê então, mermão!

Falou!

Assentei-me no sofá. Meu semblante seguramente estava desagradável:

Que cara de merda é essa?

Ah, pai, achei que era o Judas.

Cê mal conhece o cara, e já tá cheio de coisa assim? Tô te estranhando...

Ih, sai fora! É porque ele tem uma parada séria pra falar comigo.

Meu pai ergueu a sobrancelha esquerda, com um sorriso de desdém, a indicar que, como dissera, continuava “me estranhando”.

Ah, pai, quer saber? Deixa pra lá.

Último talher. No instante em que ele enxugou as mãos, a campainha soou novamente. Dizem uns que Deus é brasileiro. Nesse caso, Lúcifer é britânico.

Abri a porta sabendo que estaria ali.

Sapatos pretos, calças pretas, de brim, e uma camisa cinza, de manga comprida, de linho, provavelmente. Simples e elegante. A preferência pelo preto e por cores escuras teria algum motivo especial?

Meu caro Gabriel, como estás?

Sê bem-vindo à minha casa, Judas.

Com licença.

Toda.

Deixe-me apresentá-lo ao meu pai. Pai, este é o Judas. Judas este é o meu pai, Mazo.

Prazer, Mazo.

Judas, e o prazer é meu, senhor Mazo.

Aceita uma água, um suco?

Um pouco de água, por gentileza.

Mais?

Não, fico agradecido, senhor Mazo.

Qualquer coisa, pai, estaremos lá em cima.

Tudo bem. Fique à vontade, Judas.

Lúcifer acenou com a cabeça, sorrindo simpaticamente para meu pai.

Vamos ao terraço, aonde poderemos ficar mais à vontade.

Como achar melhor, afinal, és o anfitrião.

Pareceu-me que o sorriso foi um pouco menos simpático. Talvez estivesse enganado.

Espero que não se incomode pelas cadeiras simples, pois como vê, não somos ricos e dados a despesas desnecessárias.

É plausível. As cadeiras estão limpas, e cumprem o seu papel de serem confortáveis e manterem-nos sentados. Mais que isto é um luxo desnecessário, que me deixaria extremamente satisfeito, pois raras vezes me contento com pouco. Contudo... paciência.

Porventura estaria me acostumando com aquele jeito sincero e mordaz? O comentário passou-me praticamente despercebido.

Responderás minha pergunta?

Não.

Por que isto não me surpreende?

Talvez porque saibas que não me fio pela verdade?

E sorriu ironicamente. Sorri também.

No entanto, te contarei o que achar que convier. Não me interrompa, até que eu permita.

Perfeitamente.

O universo é dividido em diversas regiões, e para cada uma dessas regiões há uma legião de anjos, que seguem uma determinada hierarquia. O anjo mais poderoso comanda essa legião, e esse anjo está submetido a um comandante ainda mais poderoso, que comanda diversas regiões, algo semelhante aos vossos prefeitos, governadores e presidentes. Dentro da região em que estamos, eu era o anjo mais fraco. Tão logo, me foi conferido o comando do planeta mais atrasado: a Terra. Grosso modo, eu era o prefeito da Terra, e possuía meus assessores, bajuladores, e todo o aparato político-celestial necessário. Quando cheguei aqui, a Terra já existia a considerável tempo, pois os anjos chegam aos seus planetas somente quando os mesmos já estão em condição de possuírem algum tipo de vida primária. Comandei os técnicos para que procedessem as mutações necessárias para os seres se desenvolverem, ao longo dos milênios, até que chegássemos a um ser que poderia abrigar uma alma humana e outros que poderiam sustentar-lhe a existência. E este dia fatídico chegou.

Lúcifer então parou sua explanação. Eu estava estupefato. Então Lúcifer cuidou desse planeta por milhares de anos? Foi seu chefe? Ainda mais: significava que de fato havia vida em outros planetas também?

Sim, para as três.

No entanto, qual a diferença entre os mundos que os anjos recebem? Quero dizer, recebeste a Terra, como disseste, o mundo mais atrasado. E os anjos mais poderosos que tu? Receberam planetas em melhores condições?

Não. Um anjo sempre acompanha o planeta desde o início. Uma vez iniciada a missão num mundo, geralmente os anjos lá ficam até completá-la. É raríssimo um anjo tomar do trabalho de outro. Eis o que ocorre: o nosso “governador” verifica a potencialidade de um mundo, algo que para vós ainda é incompreensível, mas esse anjo que governa uma região possui o poder de prever o quanto evoluirão aquele mundo e seus cidadãos, e a que velocidade.

A Terra é tão ruim assim?

Algo até então nunca visto nesta região, e até onde ouvi, nem mesmo nas regiões circunvizinhas. Um cruzamento entre uma evolução medíocre e cidadãos que alcançariam novos horizontes de perversão e maldade. Um mundo fadado a falhar. E por pouco assim não foi.

Como Deus permite semelhante situação?

Como disse: o anjo responsável por essa região poderia prever seu desenvolvimento, no entanto quem são os responsáveis? Vós!

E pela primeira vez ele ergueu a voz, e tanto que poderia ser ouvido em qualquer canto da casa. Olhei assustado para a escada, mais preocupado se meu pai resolvesse subir, do que com o fato de Lúcifer ter gritado.

Ele saiu.

Respirei, quase aliviado. Uma preocupação a menos.

O que quero dizer é que Deus permite que façam o que bem entenderem, naturalmente sendo auxiliados por nós, os anjos. Esforçamo-nos para levar-vos ao caminho do bem, do qual diversas vezes de bom grado saís. Normalmente basta inspirar a humanidade de determinado planeta para que ela evolua. É evidente que nos casos de humanidades pervertidas este processo é mais longo.

Esse foi o caso da Terra?

Não seja estúpido! Se fosse, eu não estaria aqui a dialogar contigo.

Lúcifer estava correto. A pergunta fora estúpida. Dali em diante eu passaria a pensar duas vezes antes de verbalizar a pergunta, sabendo que tão só aparentemente tal medida era eficaz. Mas havia uma vantagem em mantê-la na esfera das idéias: Lúcifer ficava menos irritado com a estupidez do que no caso da mesma pergunta ser verbalizada.

A Terra foi uma exceção. Quando a humanidade começou a evoluir, e começou a distinguir o bem do mal, eu a intuía para que fosse boa. Esforços inúteis. Cada vez mais se chafurdava no mal. Parecia ser irremediável a situação. Fiz o que estava ao meu alcance. Já não sabia mais o que fazer ante tanta atrocidade! As rogativas dos que eram esmagados pelos maus eram incessantes, e nada as apaziguava! O mal se alastrava de maneira assustadora! O bem avançava rastejando, enquanto o mal parecia correr de uma maneira cada vez mais frenética! E quando estava para desistir, e comunicar ao meu superior que falhara, algo que anjo nenhum havia feito até então, me ocorreu uma pergunta: o que há no mal que tanto os atrai? Por que podendo optar pelo bem, tantos optam pelo mal? Nós anjos conhecíamos o mal como num compêndio, diferentemente do bem. Dispúnhamos da capacidade de comungar convosco, quando se propunham a praticar o bem, e vos dar força para nele prosseguir. Partilhávamos desta forma de vossa energia, e vós da nossa, numa simbiose que proporcionava paz e bem-estar para ambos. Todavia, ante a primeira pergunta, me decidi que antes de desistir, descobriria as razões pelas quais falhara, os motivos que os faziam se portar da maneira mais vil e perniciosa que esta região já presenciou! Era proibido, e não me ocorreu o motivo, até que descobri por conta própria. Da primeira vez em que comunguei com o mal, percebi um prazer diferente de tudo que conhecera até então, e no mesmo momento entendi porque agiam daquela forma. Naquele momento percebi que falhara miseravelmente.

Por que sentiu prazer no mal?

Não; porque tive medo de repetir o ato. Foi nesse instante que percebi que parte de mim passara a ser humana, e percebi que foi o que na verdade eu desejara. Buscava pretextos para sentir o que sentiam; queria descobrir o gozo do mal, que tanto os deliciava!

Impossível. Não pude conter mentalmente a pergunta. E ele percebeu imediatamente.

Se valeu a pena? Se valeu a pena!?

Agarrou-me pela camisa, com uma força descomunal, erguendo-me até quase bater a cabeça no teto, com as costas prensadas contra a parede. Não só seu olhar trazia o mesmo ódio de quando o vi pela primeira vez, mas seu rosto estava desfigurado, fez-me recordar um pouco algumas pinturas de Lúcifer, nas quais ele figura com chifres, rabo, pés de bode e tridente. Se havia uma réstia de anjo, era imperceptível. Estava mais humano que nunca.

Era esperar demais de ti! Se já não tivesse banido o arrependimento dos sentimentos que me adornam, agora seria ele a dar o parecer de nossa reunião!

Largou-me, simplesmente, pois se houvesse me atirado ao chão com a mesma força com que me erguera, provavelmente estas linhas jamais seriam escritas.

Não terei piedade uma segunda vez.

Achei que ele iria me matar. Foi a primeira e a última vez que tive esta impressão. Futuramente ele me revelaria que era contra seus princípios matar seja lá o que fosse.

Tu és... tu és....

E sorriu.

Um gênio!

Algumas atitudes suas jamais consegui entender, mas no dia me recordo de que suspirei, aliviado por ainda estar vivo. Lúcifer passou então a monologar, enquanto eu permanecia agachado no chão, tentando encontrar alguma lógica em tudo o que estava acontecendo.

“Did you exchange a walk on part in the war for a lead role in a cage?”

Paz pelo Prazer; Segurança pela Liberdade; Sentimentos pelas Sensações; Alma pelo Corpo! Haverão, porventura, trocas justas? O próprio trocar não implica na falta de algo? Na impossibilidade da coexistência dos dois, ou da aquisição de ambos? Se valeu a pena? Antes eu achava que valia a pena ser anjo, hoje penso que não. Tampouco ser humano. E talvez mais baixo que isso seja alguém que não é inteiramente um, nem outro; algo que transita entre os dois. Aproveita-se o óleo de cozinha para se preparar os alimentos, e a água é essencial à vida, no entanto em que se utilizará a mistura de ambos? Acaso beber-se-á o óleo junto com a água, ou colocar-se-á água junto com o óleo na frigideira? A mistura geralmente não consegue cumprir bem nem um papel, nem outro. É necessário descobrir uma função para ela, ou então desfazê-la.

Enfim resolvi quebrar o solilóquio no qual eu, aparentemente, não estava inserido.

E quanto a ti?

Não creio haja uma função para mim. Ao menos nesses milênios não a encontrei. Talvez desfazendo o processo, haja uma função para mim novamente. Talvez expurgando de mim o lixo humano, eu volte a sentir que vale a pena ser anjo. Ou não. Contudo são hipóteses, somente. Já tentaram me convencer a retornar. Mas isto ficará para um próximo dia.

E sorriu de maneira enigmática, com um brilho diferente no olhar, como se quem estivesse descobrindo tudo aquilo fosse ele, e não eu.

Amanhã à noite irás à minha casa.

No inferno? Pensei.

Desta vez ele riu. Fosse séria a pergunta, e ele não riria, seguramente.

Retirou do bolso um pequeno cartão.

Estou hospedado neste endereço.

No hotel mais caro da cidade?

E podes me chamar mais vezes para sair.

Pagarás a conta?

Não.

Sorriu e desceu as escadas.

O que me faz recordar de que quero te apresentar uma pessoa.

Ele me fitou nos olhos, com um largo sorriso, me fazendo crer que me falaria algo que eu gostaria muito de ouvir. Ou que detestaria.

É um succubus. Chama-se Lilith.

Optei pela primeira impressão.

Vai preparado, com grandes expectativas, pois este succubus, na verdade, era uma ajudante na época em que vim para este mundo.

Ou seja, é um anjo.

Não; uma anja.

E sorriu com mais malícia que antes, se é que tal era possível.

Até amanhã, Judas.

Até amanhã, Adão.

Sem beijo desta vez. E não soube o que foi pior: ter desejado o beijo ou ter me envergonhado disto. Lúcifer simplesmente virou-se e foi embora.



Cê não ofereceu nada pra ele comer?

Ele foi embora cedo, pai, logo que você saiu.

Você sabe que horas eu saí?

Sem argumentos. Sei sim! Lúcifer, antes de dar um berro, me falou que você tinha saído. É, não funcionaria.

Mas ele não ficou aqui muito tempo não.

Porra, brincadeira!

Foi mal, pai.

Da próxima vê se lembra desse pequeno detalhe: não é porque a gente almoça tarde pra caramba que todo mundo almoça também! As pessoas normais sentem fome mais cedo.

Ele suspirou contrafeito, fazendo não com a cabeça e movimentando suas mãos, a indicar que era melhor esquecer o ocorrido.

E como que foi? Tudo tranqüilo?

Tranqüilinho.

Lembrei de todo o ocorrido daquela tarde, enquanto pensava que nada a definiria tão imprecisamente quanto esse termo.

Tranqüilinho.

Repeti pra tentar me convencer. Naturalmente, fui mal sucedido.

Que bom, meu filho. Me pareceu que ele é gente fina.

Humrum, gente boa pra caramba.

Descobriu porque ele se chama Judas?

Uai, não foi você que falou que não era pra perguntar, porque talvez ele não gostasse de falar a respeito?

Foi... mas pensei que mesmo assim você não resistiria à curiosidade.

E deixar de ouvir os conselhos do meu velho?

Ambos sorrimos, numa disputa de quem era mais irônico.

Já terminou de comer?

Já, e também saquei que é melhor eu vazar. Vou pro computador.

Vai com Deus!

Sabíamos que ele não estava irritado pela minha ironia, mas acho que ele pensou que era melhor fingir que estava, para que eu eventualmente no futuro não faltasse com o devido respeito. Pensei da mesma forma. É um fingimento plausível, mesmo necessário, eu diria. Pelo menos assim eu achava.

Succubus, succubus... procurava na internet. Sabia o significado, no entanto queria colher mais informações. Foi quando então me ocorreu: se na internet, geralmente, dizem que Lúcifer é muitíssimo diferente daquele anjo meio humano que agora eu conhecia, por que as informações sobre os succubus seriam mais fiéis? Desisti da internet definitivamente, para procurar informações sobre seres que a maioria só conhecia na ficção, nos mitos e nas lendas.

Uma anja...

Monologava, deitado em minha cama. E com minha imaginação pervertida foi fácil elaborar detalhadas ações que eu teria na noite seguinte. Imaginava uma boneca inflável com vida, que se submeteria às minhas fantasias descabidas. Mal sabia que era bem o contrário...

Uma anja...

sábado, 21 de agosto de 2010

O Anjo Derrubado - Capítulo I

É interessante como algumas vezes nos vemos duvidando de nossa sanidade, e talvez por uma crendice que alcança o miserável e o aristocrata brasileiro, que os faz desviar de macumba, de gato preto, e tantas outras coisas, eu fui ao Parque Halfeld, menos com a pseudo-convicção de que fora só um pesadelo, e mais com o suor frio a escorrer pelo corpo, um suor que era mais forte que o meu pensamento, e que me dizia a cada segundo: ele está lá! Sim, está lá! Era loucura, pensei em voltar, mas a curiosidade, ah, a curiosidade! A mesma que matou o gato acabaria por me fazer perecer também.

Era um dia bonito, principalmente porque eu estava de férias, o que fazia com que qualquer dia que não fosse chuvoso (ou mesmo alguns destes) fosse classificado como bonito. Acordara ao meio dia: um café amargo, um pão amargo, uma manteiga amarga, que meu pai deliciara com tranqüilidade, afinal, se sonhara, não fora nada que se comparasse com o que eu vira, ou ao menos presumia que vira. Preferi sair sem almoçar, pois se o almoço fosse tão saboroso quanto o café, era melhor ficar sem ele.

Não és o primeiro e tampouco serás o último a me amaldiçoar.

Algumas pessoas, uns cristãos piedosos, chegaram-se a este samaritano, perguntando se eu estava bem. Chegaram mesmo a me trazer água, a qual jamais fiquei sabendo a procedência.

Estou melhor, estou melhor...

O que houve?

Minha pressão caiu.

Mentira. No entanto, que dizer? Fui abordado pelo Demônio, por isso estou pálido, trêmulo, sem forças para me levantar, com a cabeça baixa e a mão sobre o rosto para que não me vejam chorar novamente? Chorar novamente... medo e raiva.

Aos poucos foram se afastando. Um ficou, me ajudou a me levantar e a me sentar num dos bancos do parque, enquanto recuperava o que sobrou de minha sanidade e energia. A primeira coisa que me ocorreu foi que depois disso, aqueles alunos e alunas eram fichinhas.

Está melhor?

Esta voz... esta voz!!! Era ele!!!

Está tudo bem, se acalme.

O tom foi mais amistoso. Isso me tranqüilizou para no instante seguinte me deixar trêmulo novamente, diante da idéia de que ele saberia disso, e ficaria irritado por eu ter considerado o tom mais amistoso.

Fique calmo, não me irritarei. Por vezes os sentimentos humanos me assaltam, todavia, o que há de anjo em mim não me permite tornar tua situação mais dolorosa.

Cheguei a tentar controlar os pensamentos, mas era inútil, eles fluíam, verdadeiros e autênticos como o são, para serem apreciados por aquele olhar diabólico e angelical, me deixando de tal forma confuso que cheguei a me perguntar se tais adjetivos situavam-se de fato nos extremos opostos.

Prefiro tua sinceridade.

Respirei com alguma dificuldade, já um pouco menos distante de ficar calmo.

Não... não vais... te irritar?

Não.

Ficamos em silêncio por algum tempo. Por muito tempo. Desconfiei que se passou muito tempo porque cheguei a ficar calmo de fato, e também porque tive fome. Quem passasse veria dois amigos sentados lado a lado sem dizer palavra.

Manda que estas pedras se tornem em pães...

Nem só de pão viverá o homem...

Mateus, capítulo quatro, versículos três e quatro.

Pensei que não gostasse da Bíblia, e de tudo que Ela encerra.

Ainda que não gostasse, era necessário conhecê-La, do contrário, como combateremos o que nos é desconhecido? Contudo, o mais interessante: mesmo teoricamente sendo indiferente, terminei por lê-La tantas e tantas vezes, que A decorei. Fico ainda a pensar o que me moveu e move.

Então olhei para ele. No sonho não pude apreciar a sua fisionomia, me lembrava vagamente do sorriso e do olhar, e até o presente momento ainda não tivera coragem para encarar tais olhos outra vez. Confesso que cheguei a corar por achar um homem lindo. Possuía traços perfeitos, tez branca, olhos pretos, cabelos longos, lisos e pretos. Era um elfo belíssimo. Foi a melhor comparação que consegui encontrar até hoje.

Não te envergonhes. Se não achares lindo um anjo, como apreciarias as demais belezas do universo?

Sim, de fato, por vezes me esquecia de que era um anjo. Alguns diziam que foi um anjo. Talvez os últimos estivessem enganados.

Levantemos. Tens fome. Conheço um lugar onde poderás comer tranquilamente, bem como poderemos conversar sem sermos incomodados.

Não andamos muito, mas percebi que por tudo que tinha passado, ainda tinha as pernas trêmulas, e caminhava com alguma dificuldade.

Uma torta de chocolate, por favor.

Teria que ser açúcar para dar cabo daquela fome bem rápido, e teria que ser chocolate para que talvez a sensação de bem-estar por ele proporcionada me ajudasse a voltar ao eixo.

O prazer o tira do eixo, e não o contrário.

Então o que sugere que eu faça?

Não me permito sugerir, somente analisar.

Por quê?

A culpa pela falha seria minha, bem como os louros do sucesso.

Pensei que tentava as pessoas, para que elas fizessem o mal.

Fosse uma pessoa comum, e teria dado uma estrondosa gargalhada, certamente, pois futuramente percebi o quão absurdo foi meu comentário, mas ele era discretíssimo, e limitou-se a sorrir, enquanto abanava a cabeça.

Não, não as tento, como dizes. Limito-me a apreciar o que fazem. Depois de tanto tempo, experimentei convosco o que há de mais ignóbil e ultrajante em cada pecado imaginável ou não pelo homem ordinário. Note-se que simplesmente acompanhava os impulsos doentios de todas essas pessoas, e não os estimulava. Primeiro porque não me permito, e segundo porque prefiro que seja natural a opção pelo mal. Parece-me um estupro a idéia de forçar uma pessoa a fazer o mal.

Condenas, dessa forma, o estupro?

É uma conclusão precipitada. Quando um ocorre e delibero participar passivamente, geralmente a lascívia do ato me enche de um êxtase para vós sem comparação, para por fim as lágrimas dela despertarem em mim os sentimentos de anjo, e chorando também me afasto diante de tal perversidade.

Não compreendo... quer dizer que há uma dualidade?

Pior que a dualidade que há em vós. Em vós o bem é tímido, e muitas vezes o mal triunfa sem fazer grande esforço.

Mas tivemos grandes nomes que se esforçaram para fazer o bem vigorar na Terra.

De fato. Mártires que passaram e passam ainda para despertar a humanidade que modorra entre o prazer e a razão. Esforços louváveis, não obstante inúteis para uma grande maioria.

Por quê?

Simples: fortaleceu a vontade de quem já a possuía, e para quem nunca a teve, foram completamente inúteis. Uma minoria se convenceu de que a opção pelo bem é a melhor.

E tu, pensas que concluíram erroneamente?

Seus olhos faiscaram em ódio, e para minha grata surpresa o meu pavor foi infinitamente menor que o de outrora, apesar de no susto ter largado os talheres e mordido a língua, misturando o sabor do sangue e do chocolate. Talvez a presença dele começasse a me afetar de maneira mais profunda, pois a mistura me pareceu saborosa, apesar de meus esforços por repelir tal idéia.

Que bom que já sentes menos medo, pois serei tão autêntico quanto teu pensamento é comigo, e a respeito da tua pergunta, por que a hipocrisia e a questão velada? Por que segundas, terceiras e enésimas intenções?

Perdoe-me.

Foi sincero o pedido, pois percebi que ele acalmou-se no mesmo instante.

Por que tu optaste pelo mal?

Em tempo oportuno responder-te-ei.

Era difícil acompanhar sua impecável linguagem, na qual figuravam tantos termos e construções eruditas.

Ele estava certo. Sentia que o prazer do chocolate aliado, a contragosto meu, ao prazer do sangue, não só me tirava do eixo como ainda me fazia pensar de uma forma estranha para mim, até o momento. Pedi outra torta.

Era tarde.

Sim, é melhor voltares para tua casa.

Posso vê-lo amanhã?

Irei à tua casa.

Como!?

Pensei em inventar uma desculpa, mas felizmente a tempo me lembrei de que ele preferia a sinceridade.

Não me sentiria à vontade.

Ele sorriu, como fez outrora.

Estamos começando a nos entender. Quem sabe amanhã não lhe conto minha história, e respondo à tua pergunta? Irei assim que teu pai terminar de lavar a louça do almoço, para não importuná-lo. Sugiro que o avise, para que ele não tenha uma surpresa desagradável.

Ao se despedir de mim osculou-me o rosto, com uma ternura absolutamente indescritível. Não há como comparar. Lembrei-me de que ele era um anjo, e isto tornou minha vergonha quase suportável.

Eu te saúdo.

Num átimo me veio à mente a resposta, num lance que não me lembro de ter ocorrido novamente. Talvez ele houvesse me escolhido, se o fizera, por eu ter algum conhecimento bíblico, ainda que bem pequeno?

Amigo, a que vieste?

Sorriu e foi embora, pagando a conta, fazendo com que o segundo pensamento fosse o de que deveria chamá-lo para sair mais vezes, e o primeiro, menos mesquinho e medíocre que o segundo, foi o de tentar entender o que ele quis dizer com isso.

Já em casa, lendo a Bíblia para tentar melhor compreender o que ele quis dizer, repassei o trecho e contextualizei as duas frases.

Mateus, capítulo vinte e seis, versículos quarenta e nove e cinqüenta...

Que foi, meu filho?

Nada, pai, só lendo um pouco o Evangelho.

Era inútil. No máximo poderia inferir a sua intenção, e àquela altura isso não seria o suficiente. Então comecei a divagar noutra direção. Por que ele me escolhera? Ou visitara outras pessoas também? Afinal, era senão impossível, no mínimo impraticável sair por aí falando que o vimos. Fiquei imaginando de quais recursos nos utilizaríamos para veladamente transmitir esse fato: encontrei-me com Lúcifer. Sim, Lúcifer. Inicialmente evitava o nome, tanto no pensamento quanto nas palavras, mas o cotidiano veio a me fazer redimensionar o nome e o anjo. Hoje seu nome já não mais me incomoda. Mas àquela época isso ainda não era fato.

Como farei? Não há um único amigo, um único parente ao qual poderia relatar tais acontecimentos. Um psicólogo? Por certo no mínimo me receitaria uns psicotrópicos poderosos para dar cabo do meu delírio, e no máximo, bem, nunca sabemos o que uma pessoa pode fazer no máximo, principalmente instituída de tanto poder social, econômico e temporal, como é um médico. Mas talvez uma atitude mais drástica seria me internar. Antes disso digo que não o vejo mais. Não, não. Talvez por influência do meu pai, sempre me mantive afastado de três que lá estão para nos acudir: medicina, polícia e justiça. Quem não deve não teme, mas como o seguro morreu de velho, achei que terminamos empatados na sabedoria popular. “A missão dos cientistas é provar que a sabedoria popular está correta”. Seja verdade ou não, optei por seguir esta assertiva.

Filho, vem comer.

Estranho. Estava gostoso. Ao menos tudo tinha o sabor que deveria ter. Mas estava sem graça. Faltava um tempero que experimentara recentemente. Medo? Raiva? Sangue?

Tá estranho.

O que, meu filho?

Ah, nada pai, tava viajando aqui.

Sorri forçadamente, mas meu pai não me perguntou nada.

Estava ficando perigosamente sincero, de um momento para o outro. Nunca pensei que em um único dia, uma pessoa pudesse fazer com que a falsidade que sempre me acompanhou perdesse tanto terreno, a ponto de ser sincero quando não devia.

Tá ruim?

Não, não falava da comida. É mais umas coisas que tem acontecido comigo.

Tipo?

Ah, sei lá. Sonhei umas paradas meio estranhas. Sonhei que conversava com o... o dito cujo.

Você tem que parar com aqueles jogos, principalmente antes de dormir. E vê se reza antes de dormir também.

Vou fazer isso sim.

Faz mesmo.

Quando meu pai não discorria extensamente sobre algum assunto religioso, geralmente era de poucas palavras. Sucinto, direto, e sincero. Admirava isso nele, apesar de às vezes preferir que ele equilibrasse um pouco, sendo mais sucinto no primeiro caso, e menos nos demais. Mas a vida é assim mesmo. O ideal seria o caminho do meio. O ideal seria o equilíbrio. O ideal seria temperar isso com sangue.

Tô satisfeito, pai, licença.

Não vai terminar de comer?

É que comi na rua, tem pouco tempo.

Li em seu rosto a reprovação. Era justo, pois pessoas passavam fome naquele instante, e jogar comida fora não era do nosso feitio, por questões principalmente éticas.

Joga pros cachorros lá fora. E da próxima vez, come mais cedo na rua.

Tranqüilo. Ah, pai, amanhã um amigo meu vem aqui.

Quem?

Um cara gente boa, que conheci quando fui na casa do Armando.

Era o suficiente. Meu pai gostava muito do Armando. Um amigo de infância, com o qual sempre me identifiquei bastante. Uma pessoa boníssima, e meu pai sabia disso. Se era amigo do Armando, seria uma pessoa boa também. Não gostava de mentir para os meus pais, mas ali seria difícil encontrar outra saída.

Que horas?

De tarde, depois do almoço.

Do dele ou do nosso? E sorriu com ironia.

Sempre almoçamos tarde. Algo que até o momento não conseguimos vencer. Acordamos tarde, tomamos café tarde, e almoçamos tarde.

Do nosso.

Então tá bem. Ah, qual o nome dele?

Por sorte eu estava indo para meu quarto, e meu pai não pode ver que fiquei lívido, sem resposta.

Quê?

O nome do seu amigo.

Lúcifer, pensei. E no pensamento ficou. Em um segundo ou menos, me ocorreu que não seria lícito usar de qualquer outro nome para referir-me a ele, um nome que adornasse as pessoas que caminham entre nós. Teria que ser um nome que ninguém utilizasse. Então me lembrei de quando ele se despediu de mim.

Judas.

Judas!?

É, achei estranho também, mas vá entender.

Bem, à época de Jesus havia também São Judas Tadeu, talvez seja em homenagem a ele... mas por que não Tadeu? Logo Judas? A última pergunta carregava certo tom de inconformismo.

Fiz um gesto com os ombros, dando a entender que não fazia a menor idéia do motivo. E realmente não fazia.

Amanhã pergunto pra ele.

Melhor não, deixa pra lá. Às vezes ele não se sente à vontade pra falar a respeito.

Beleza. Vou dar um tempinho lá no computador.

Vai ficar com aqueles joguinhos de novo? Depois sonha com o que não deve e não sabe porquê...

Só um pouquinho.

Então me ocorreu a idéia. No computador, entrei num desses chats e falei que encontrara com Lúcifer. Como era esperado, ninguém me levou a sério. O que de fato sequer me incomodou, pois o que eu queria era ser ouvido, e externar os fatos, independente de como aquilo chegaria a eles ou elas. Se levavam a sério, ou se riam, não me importava. A maioria que de certa forma levou a sério eram adeptos do satanismo, e ante uma série de perguntas sem sentido que me faziam, preferi deixar o computador. Era perder tempo.

Não deiteis aos porcos as vossas pérolas...

Estava difícil, pois eu queria conversar com alguém a respeito, alguém inteligente, que ficasse intrigado com o que Lúcifer falara, e comigo tentasse esquadrinhar o sentido oculto ou não de suas palavras.

Pesquisei na internet, procurando a respeito de pessoas que o haviam encontrado. Em vão. A maioria relatava situações esdrúxulas, de um ser com chifres, rabo, pés de bode e um tridente. Ridículo.

As pálpebras pesavam, e fui então me deitar.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Anjo Derrubado - Prólogo

Se quiseres realmente, estarei no Parque Halfeld amanhã.


Medo. As palavras topavam com um obstáculo intransponível na garganta. Era um pesadelo, havia de o ser. No entanto, como se me prendesse a tal sonho absurdo, sem poder retornar à cama, ele aguardava uma resposta. De toda forma, concluí que dali não sairia sem lhe responder:

Como... como o encontrarei?

Não, não era verdade. E ele bem o sabia. Não quereria vê-lo jamais. A pergunta em minha mente era bem outra: o que faço para retornar? O que faço para tu me deixares?

Fraco! Eis o que tu és! Eis-me mais humano que nunca, me sujeitando a tais caprichos infantis!

Como o encontrarei?

Um ignoto brilho em seu olhar me fez paralisar de medo e de júbilo, como se ali houvesse aprovação de um mestre frio e cruel, ciente de tudo que se passava em minha mente e coração.

Tens um Mestre, e este não sou eu.

Quem é ele?

Falaremos dele em breve, no Parque Halfeld. É um grande amigo, um querido amigo...

Falava com um sorriso triste, o olhar fixo em coisa alguma, como quem se lembra de algo, e em seguida falou calma e pausadamente, trazendo talvez todo o ódio da humanidade num único olhar:

Ousarás ter piedade de mim uma única vez! Vai ao Parque Halfeld, é tudo que precisas saber.

Em minha cama, suando frio, eu chorava; era o medo pueril do bicho papão que me visitava, e também a raiva do animal fustigado no seu ponto mais sensível: o orgulho.

Um professor, tantas e tantas vezes humilhado, que prometera para si mesmo não aceitar mais uma única ofensa de tal monta, estava ali a chorar.

Maldito! Maldito!!! Teve o que merecia! Espero que mesmo sendo o chefe, que esteja sofrendo no Inferno!!!