Vesti-me, como se estivesse vestindo outro corpo, como se minha alma ainda estivesse nua. Sair daquele apartamento, entrar no elevador, apertar o botão para ir ao térreo, sair do hotel, entrar no táxi, falar o endereço ao motorista, não falar mais nada ao motorista, pagar e desejar boa noite, abrir o cadeado do portão, a porta de casa, e deitar na cama... não fazia o menor sentido, absolutamente nada disso.
Eu ainda estava lá, no apartamento com Lúcifer e Lilith, com a incômoda sensação de estar deitado em minha cama. Parecia um sonho às avessas, aonde eu sonhava que estava em minha cama, deitado, quando na verdade estava naquele apartamento, que fez alguma coisa comigo, com a minha essência, com a minha alma.
Afirmaria que fiquei acordado até àquela hora, no entanto me pareceu que eu havia dormido, pois o corpo parecia cansadíssimo, como se o houvessem espancado, típico de quando dormimos pouquíssimas horas. Com esforço me levantei e fui até o banheiro lavar o rosto.
É, a noite foi longa mesmo. Nem trocar a roupa conseguiu, meu filho?
A ironia de meu pai geralmente não era bem vinda, e naquele momento a minha ira e o meu ódio tomaram tal vulto que desapareceram, como nos momentos em que a fome alcança tal proporção que deixamos de senti-la.
Tô indo trocar agora.
Troquei de roupa, tomei café, e fui dormir.
Vai dormir de novo!?
Tô cansado e tô de férias.
Vida difícil essa de professor...
O senhor poderia fechar a porta, por gentileza, quando se retirar?
O limite da frieza coincide com o limite da loucura. Quando estamos no limiar do desequilíbrio, prestes a mostrar o nosso lado mais sombrio, a um passo da insanidade, a frieza e a educação com que nos dirigimos à pessoa é algo no mínimo notável.
Um sono estranho, pouco reparador, e sem sonhos.
Assim que me levantei pela segunda vez naquele dia, após lavar o rosto e recuperar o máximo de sobriedade que consegui, meu celular tocou. Um número que eu não conhecia.
Quem é?
Lúcifer.
Como conseguiu o meu número?
Poucas coisas nesse mundo não estão ao meu alcance conseguir, e o número do teu celular não está entre elas.
Pela resposta, só poderia mesmo ser Lúcifer.
Encontre-me no mirante hoje de tarde. Gostaria que nossa conversa, que para mim será repleta de nostalgia, tivesse ao menos uma paisagem agradável.
Que horas?
Almoce e vá.
Desligou, sem as típicas despedidas nossas, que diversas vezes cumprem antes um papel social e mecânico, carecendo de sinceridade e afeição, como tantos outros atos humanos.
Banho... ah, o banho! Depois de tudo que havia passado, a água correndo pelo meu corpo era antes mãos angelicais que acariciavam minha alma fatigada. Não era a sujeira das ruas da cidade, o suor do corpo e as células mortas que a água levava embora, mas sim a sujeira da estrada da vida, o suor da alma e os conceitos mortos é que desciam devagar pelo ralo, junto com o pó do caminho. De olhos fechados eu deixava a água cair sobre meu rosto, descendo vagarosamente por todo o corpo. Subitamente senti uma paz inenarrável, seguida do desejo de partilhá-la com Eva, abraçá-la, protegendo-a de algo que pudesse entristecer ou ferir a minha irmã. Então me lembrei de Lilith, e quis abraçá-la também, dividir aquela paz com ela, pois a imagem que se fixou em minha mente foi o momento em que me fitara com ternura e tristeza. Porventura podeis avaliar o impacto que a tristeza de um anjo causa em uma alma humana? Lilith...
Gabriel, a Eva tá te esperando.
A voz de meu pai me puxou de volta à realidade, com tal ímpeto que a melancolia deu lugar à ansiedade, quase instantaneamente
A uns quinze minutos.
Ah, a sutileza do meu pai! Sempre fascinante. Todavia, como Eva já me conhecia a anos, o banho demorado não era novidade para ela. Apressei-me unicamente em função da ansiedade em revê-la, que me assaltou como jamais havia feito até então.
Eva!
Biel!
Um abraço longo. Senti seu perfume, seus braços que me puxavam ligeiramente para junto dela, seu corpo que pressionava o meu suavemente, as batidas de seu coração.
Que que houve, Biel? Seu coração tá disparado.
Emoção em te ver.
E sorri, como quem fazia uma brincadeira. Que maneira melhor de disfarçar um motivo, senão contando-o de maneira jocosa?
Ah, deixa de bobeira!
Então ela me fitou nos olhos.
Biel, tem alguma coisa acontecendo sim. Você tá com um olhar diferente.
Mentir para Eva era algo quase impraticável.
Maninha, queria te contar, mas fico sem graça.
Maninha. Era ela ouvir essa palavra, que seu olhar passava imediatamente a ser de uma doçura infinita.
Ah, então deixa pra lá, maninho. Mas cê não tá bem, né?
Mas vou ficar. Se preocupa não.
Abraçou-me novamente.
Sabe que eu te amo, né?
Meus braços se afastaram um pouco dela, e quase dei um passo pra trás. Até ali, fui em parte bem sucedido em disfarçar o estranho sentimento que se apossou de mim quando eu a vi. Até ali.
Que que houve, Biel?
Trazia seu olhar consternado, entristecido, como se eu houvesse rejeitado algo valiosíssimo que ela me oferecia. E era exatamente o que eu fiz.
Me perdoa, Eva. Não é contigo, é que... eu... me perdoa.
Abaixei a cabeça.
Com a mão direita sobre minha face, ela ergueu minha fronte.
Tá tudo bem, Biel.
Seu olhar trazia tal tristeza, que me fez recordar de Lilith. Lilith eu não podia ajudar, mas não permitiria que minha mediocridade deixasse minha irmã daquela forma.
Com as duas mãos sobre seu rosto, eu a trouxe para próximo de mim. E osculei-lhe a testa, num gesto que fizera inúmeras vezes, com o qual Eva era fascinada.
Me perdoa, maninha. Não sei o que deu em mim, mas já passou. Eu te amo muito, muito mesmo.
Ela sorriu puerilmente, fitou-me nos olhos com indizível alegria, e abraçou-me fortemente, como se tentasse me transmitir alguma coisa. E conseguiu.
Biel, tenho que ir agora, mas se precisar de mim, me liga. Tô preocupada com você.
Tá tudo bem, fica tranquila. Agora já tô bem.
Então ela se virou e foi caminhando em direção à porta, enquanto no meu corpo permanecia a suave impressão de que ela ainda me abraçava.
Tchau Biel!
Tchau Li... Eva!
Oi?
Nada não, tava só despedindo.
Ah, tá!
Sorriu, acenou com a mão, e foi embora.
Assentei-me no sofá, sentindo em mim transitar duas energias muito distintas, como se yin e yang girassem, invertendo suas posições a cada instante.
A doçura de Eva, e a volúpia de Lilith. Se toda escolha implica em perda, Lúcifer me libertar de algo não implicaria em me prender a outro? Abandonar a personalidade que construí até ali não faria as afeições construídas em torno dela ruírem também? Será que tudo que consegui em função dela eram mentiras convenientes? Medo.
Desde que encontrara com Lúcifer, aquela foi a primeira vez que tive medo do que eu poderia me tornar. Do que eu poderia perder. Passei a tremer ante a ideia de me afastar definitivamente de Eva. Ante a ideia de me afastar de todos. De encontrá-lo naquela tarde.
Passei a suar frio, e posteriormente me senti aliviado de ter passado desodorante, do contrário, dado o tanto que suei, necessitaria de outro banho. Mas antes desse pensamento, a agonia se apossou de mim, e creio que a melhor forma de descrevê-la é através de uma metáfora: eu carregava uma rosa cujo perfume me inebriava, no entanto seus espinhos feriam minha mão. Eu desejava ouvir Lúcifer novamente, mas temia o que poderia suceder.
Vem comer, meu filho.
Ao menos um dia, um único dia, eu gostaria de almoçar sem que a expectativa, ou o medo, ou seja lá o que fosse me impedisse de sentir o gosto da comida. Em vão. Novamente eu comia chumbo, e o mais notável: por vezes ele tinha textura de arroz, outras vezes lembrava o feijão, macarrão, às vezes tinha mesmo gosto de comida, mas ao atingir o estômago, ah, não restava a menor dúvida! Chumbo, somente.
Que que houve? Quando a Eva vem te ver cê fica todo animado. Agora taí, com essa cara de bosta.
É porque ela não tá muito legal, daí fiquei meio bolado.
Mentir para o meu pai era mais fácil. E me pouparia de um número considerável de explicações.
Entendi. Aconteceu alguma coisa?
Uns lances meio tensos. Mas vai ficar de boa.
Então tá.
Ou em outros termos, meu pai dizia: “Entendi, você não quer me contar. Não queria saber mesmo”.
O resto do almoço transcorreu no silêncio habitual.
Assim que terminei de almoçar, me senti aliviado de que Lúcifer me disse para encontrá-lo depois do almoço, pois a expectativa começava a me corroer como um verme.
Novamente, meu cérebro não só me levou até o ponto de ônibus, como ainda me fez subir os degraus, pagar o cobrador, girar a roleta, assentar-me, e depois dar o sinal para o ônibus parar no ponto exato. Então pude ouvi-lo: “Gabriel, fiz a minha parte. Agora é você com o Lúcifer”. Claro, claro. Pode deixar a parte tranquila para mim...
Assim que desci do ônibus, numa arritmia perturbadora, eu o vi. Engoli uma saliva tão seca, que uns diriam que chegava do deserto. Ele estava em pé, cotovelos apoiados sobre um parapeito, vestindo um sobretudo preto, que dava um ar aristocrático. Observava a cidade. Obviamente notou a minha chegada, no entanto sequer se moveu. Aproximei-me com as pernas trêmulas, como se chegasse novamente ao Parque Halfeld. Estava articulando uma frase, alguma coisa para dizer para ele.
O que temes?
E virou-se, fitando-me nos olhos, num misto de desaprovação e desdém.
Porventura o que podes perder? Dentre tais mentiras convenientes, quais realmente lhe fazem falta? Já te habituaste de tal forma ao sapato apertado que temes deixá-lo de lado? Ou então é o medo de andar descalço? É o conceito dourado que fazem de ti? Patético.
Então me lembrei de que fora ele mesmo quem me dissera para jamais perder o medo.
Então ele sorriu com desprezo, meneando a cabeça.
Ainda mais patético. Achas porventura que eu aprovaria o medo boçal de um conceito pífio criado pelos homens? Falava de um medo profundo que atinge a alma, não de um receio medíocre que arranha a mente.
Então me lembrei de Eva, das pessoas que me eram caras, enquanto tentava imaginar o que realmente eu poderia perder.
Vai-te, pois no fim, talvez sejas como eles, de fato. E não tenho tempo para perder com pessoas tão...
E olhou para o céu.
Que linguagem pobre, sequer há um termo para designar algo que seja infinitamente desprezível. Adeus, Gabriel, foi um desprazer.
Assim que ele me deu as costas, senti como se estivesse perdendo algo importante. Algo realmente importante. Perdoe-me Li... Eva.
Por favor, espera!
E então voltou-se sorrindo, dessa vez com um ar de triunfo.
Não é fascinante como o imperativo qualifica a ordem e a súplica? Quando tu dizes “espera”, é uma súplica. Se eu digo, é uma ordem.
Consenti em silêncio.
A tarde será longa, como eu disse, então não me interrompa novamente por motivos tão pueris e insignificantes. Agora ouve em silêncio.
Novamente fitando o céu, ele começou a falar.
Quando disse que Lilith e eu éramos muito próximos, e nos amávamos como irmãos, não mencionei que na verdade o grupo que estava sempre junto eram de três anjos. Ele, o mais velho dentre nós, conseguiu posição mais elevada, auxiliando diretamente o arcanjo que vela pela nossa região. O nosso terceiro irmão, que partilha de nosso profundo amor, percebeu imediatamente, não obstante a distância de anos-luz que nos separava, a mudança em nossa energia; primeiramente eu, depois Lilith. Então, provavelmente assim que conseguiu autorização, veio aqui para ver o que se passava. Miguel...
Falava Lúcifer do arcanjo Miguel? Será que... o arcanjo Miguel na verdade era seu amigo?
Lúcifer então voltou-se para mim.
Ele não alcançou o patamar de arcanjo. Por hora. E não era meu amigo. É ainda.
Então me lembrei das pinturas, em que Miguel figura com uma espada, combatendo Lúcifer.
Poucos desenhos conseguiram ser tão inexatos. Miguel lutando? Contra mim? Miguel sempre foi reconhecido dentre os demais anjos por ter assimilado na essência a ideia da defesa. Não crê ele na força de atacar; somente na de resistir. Miguel erguendo uma espada é das imagens mais estapafúrdias possíveis. Tanto mais contra mim. Não somos inimigos, mas sim irmãos. E eu ainda o amo, como meu irmão.
Literalmente boquiaberto, creio ter permanecido nesse estado por largo tempo. Talvez até Lúcifer terminar sua exposição.
Miguel, assim que chegou a este mundo escabroso, notou o que havia ocorrido, e tomou providências. Os meus subordinados que ainda não haviam se corrompidos, ficaram sob tutela dos subordinados dele. Posteriormente, numa conversa que tivemos, Miguel me disse que não deliberaram demover-nos de nosso propósito. Mas tomaram as providências que engendrariam uma mudança radical na Terra. Percebendo ele a inclinação natural do ocidental ao materialismo e ao menosprezo a tudo que diz respeito ao divino, voltou-se para os orientais, que apesar de mais espiritualizados em certos aspectos, permaneciam muito atrasados em outros, como no trato com as mulheres, por exemplo. No entanto, em função das circunstâncias, era a melhor opção de que ele dispunha.
Então Lúcifer parou a explicação, e fitou-me, ligeiramente colérico.
Não consegues mais manter tua concentração em minhas palavras, dada a curiosidade da minha conversa com Miguel. Pois bem, antes de continuar, lhe contarei parte dela, do contrário, temo a necessidade de repetir a história, caso queira me fazer entendido por alguém tão estúpido.
É no mínimo notável que alguém orgulhoso como eu, mesmo ofendido daquela forma, não dissesse nada. Creio que meu bom senso supera meu orgulho.
Assim que senti a energia de Miguel, fui ao seu encontro, ao passo que Lilith disse que sua vergonha era demasiada, e que não desejava vê-lo. Miguel, sabendo disso, esperou-me sozinho, numa pequena ilha, que o homem ainda não havia destruído.
Assim que o encontrei, olhamo-nos nos olhos, a reduzida distância. Miguel cumprimentou-me, com seu gesto habitual: mão esquerda sobre a direita fechada, próximas ao peito, suavemente movidas em minha direção. Repeti o gesto, e sentamo-nos na areia. E ali, sem palavras, entendemos tudo.
Permite-me seguir com o planejamento de Emanuel?
Perfeitamente. Jamais vos perturbaria.
Depois de longos minutos, em que permanecemos nos fitando, sem desviarmos os nossos olhares, Miguel diria mais duas frases, antes da minha partida.
Oscula Lilith por mim. E retorna quando quiseres.
Esta foi a conversa.
Em que momento ele dissera que não deliberaram a vossa mudança?
Não ouviste? Quando disse que permanecemos longos minutos nos olhando? A conversa foi em sua quase totalidade pelo olhar. Miguel verbalizou unicamente o que considerou importante destacar. Do contrário, nosso diálogo seria todo daquela forma.
Fiquei a imaginar a cena, e realmente sua beleza era extraordinária. Num contraste gritante com as pinturas que temos de Lúcifer e Miguel.
Ele, que ficou conhecido como o “Anjo Conciliador”, passou a inspirar as pessoas do oriente, para que modificassem sua postura. Ensinou-os, através da sugestão, o poder de resistir ao mal, a força de não reagir, a fortaleza da serenidade. Aos poucos, logrou algum êxito, e nesse ínterim, Emanuel fora notificado do que sucedia. A Miguel foi dada a direção temporária da Terra, até que Emanuel viesse, e decidisse o que se faria em seguida.
Emanuel seria o anjo responsável pela nossa região? Pensei.
Sim. Arcanjo Emanuel. Diante do quadro que tinha à frente, Emanuel pode avaliar que qualquer mudança na Terra demandaria um tempo expressivo, e talvez, antes que ela chegasse a um ponto de equilíbrio, o mal já teria consumido-a. Uma influência indireta não poderia resolver aquela situação. Então Emanuel utilizou o que talvez seria o último recurso de que dispunha.
Então Lúcifer sorriu, enquanto virava-se para ir embora.
Qual recurso? Perguntei, sabendo que ele deixaria a curiosidade me açoitar por largo tempo.
Sem se virar completamente, ele fitou-me nos olhos, com uma seriedade e respeito que eu jamais vira até então.
Ele desceu, para ensinar diretamente os homens.
Um anjo entre nós. Não, um arcanjo entre nós, certamente marcaria o mundo. Será?...
“Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.”
Com os olhos marejados, trêmulo, e com um frio que perpassava toda a coluna, ouvi Lúcifer dizer, antes de ir embora:
Sim, Emanuel marcou o vosso mundo. Sob o nome de Jesus.
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