sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Anjo Derrubado - Prólogo

Se quiseres realmente, estarei no Parque Halfeld amanhã.


Medo. As palavras topavam com um obstáculo intransponível na garganta. Era um pesadelo, havia de o ser. No entanto, como se me prendesse a tal sonho absurdo, sem poder retornar à cama, ele aguardava uma resposta. De toda forma, concluí que dali não sairia sem lhe responder:

Como... como o encontrarei?

Não, não era verdade. E ele bem o sabia. Não quereria vê-lo jamais. A pergunta em minha mente era bem outra: o que faço para retornar? O que faço para tu me deixares?

Fraco! Eis o que tu és! Eis-me mais humano que nunca, me sujeitando a tais caprichos infantis!

Como o encontrarei?

Um ignoto brilho em seu olhar me fez paralisar de medo e de júbilo, como se ali houvesse aprovação de um mestre frio e cruel, ciente de tudo que se passava em minha mente e coração.

Tens um Mestre, e este não sou eu.

Quem é ele?

Falaremos dele em breve, no Parque Halfeld. É um grande amigo, um querido amigo...

Falava com um sorriso triste, o olhar fixo em coisa alguma, como quem se lembra de algo, e em seguida falou calma e pausadamente, trazendo talvez todo o ódio da humanidade num único olhar:

Ousarás ter piedade de mim uma única vez! Vai ao Parque Halfeld, é tudo que precisas saber.

Em minha cama, suando frio, eu chorava; era o medo pueril do bicho papão que me visitava, e também a raiva do animal fustigado no seu ponto mais sensível: o orgulho.

Um professor, tantas e tantas vezes humilhado, que prometera para si mesmo não aceitar mais uma única ofensa de tal monta, estava ali a chorar.

Maldito! Maldito!!! Teve o que merecia! Espero que mesmo sendo o chefe, que esteja sofrendo no Inferno!!!

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