É interessante como algumas vezes nos vemos duvidando de nossa sanidade, e talvez por uma crendice que alcança o miserável e o aristocrata brasileiro, que os faz desviar de macumba, de gato preto, e tantas outras coisas, eu fui ao Parque Halfeld, menos com a pseudo-convicção de que fora só um pesadelo, e mais com o suor frio a escorrer pelo corpo, um suor que era mais forte que o meu pensamento, e que me dizia a cada segundo: ele está lá! Sim, está lá! Era loucura, pensei em voltar, mas a curiosidade, ah, a curiosidade! A mesma que matou o gato acabaria por me fazer perecer também.
Era um dia bonito, principalmente porque eu estava de férias, o que fazia com que qualquer dia que não fosse chuvoso (ou mesmo alguns destes) fosse classificado como bonito. Acordara ao meio dia: um café amargo, um pão amargo, uma manteiga amarga, que meu pai deliciara com tranqüilidade, afinal, se sonhara, não fora nada que se comparasse com o que eu vira, ou ao menos presumia que vira. Preferi sair sem almoçar, pois se o almoço fosse tão saboroso quanto o café, era melhor ficar sem ele.
Não és o primeiro e tampouco serás o último a me amaldiçoar.
Algumas pessoas, uns cristãos piedosos, chegaram-se a este samaritano, perguntando se eu estava bem. Chegaram mesmo a me trazer água, a qual jamais fiquei sabendo a procedência.
Estou melhor, estou melhor...
O que houve?
Minha pressão caiu.
Mentira. No entanto, que dizer? Fui abordado pelo Demônio, por isso estou pálido, trêmulo, sem forças para me levantar, com a cabeça baixa e a mão sobre o rosto para que não me vejam chorar novamente? Chorar novamente... medo e raiva.
Aos poucos foram se afastando. Um ficou, me ajudou a me levantar e a me sentar num dos bancos do parque, enquanto recuperava o que sobrou de minha sanidade e energia. A primeira coisa que me ocorreu foi que depois disso, aqueles alunos e alunas eram fichinhas.
Está melhor?
Esta voz... esta voz!!! Era ele!!!
Está tudo bem, se acalme.
O tom foi mais amistoso. Isso me tranqüilizou para no instante seguinte me deixar trêmulo novamente, diante da idéia de que ele saberia disso, e ficaria irritado por eu ter considerado o tom mais amistoso.
Fique calmo, não me irritarei. Por vezes os sentimentos humanos me assaltam, todavia, o que há de anjo em mim não me permite tornar tua situação mais dolorosa.
Cheguei a tentar controlar os pensamentos, mas era inútil, eles fluíam, verdadeiros e autênticos como o são, para serem apreciados por aquele olhar diabólico e angelical, me deixando de tal forma confuso que cheguei a me perguntar se tais adjetivos situavam-se de fato nos extremos opostos.
Prefiro tua sinceridade.
Respirei com alguma dificuldade, já um pouco menos distante de ficar calmo.
Não... não vais... te irritar?
Não.
Ficamos em silêncio por algum tempo. Por muito tempo. Desconfiei que se passou muito tempo porque cheguei a ficar calmo de fato, e também porque tive fome. Quem passasse veria dois amigos sentados lado a lado sem dizer palavra.
Manda que estas pedras se tornem em pães...
Nem só de pão viverá o homem...
Mateus, capítulo quatro, versículos três e quatro.
Pensei que não gostasse da Bíblia, e de tudo que Ela encerra.
Ainda que não gostasse, era necessário conhecê-La, do contrário, como combateremos o que nos é desconhecido? Contudo, o mais interessante: mesmo teoricamente sendo indiferente, terminei por lê-La tantas e tantas vezes, que A decorei. Fico ainda a pensar o que me moveu e move.
Então olhei para ele. No sonho não pude apreciar a sua fisionomia, me lembrava vagamente do sorriso e do olhar, e até o presente momento ainda não tivera coragem para encarar tais olhos outra vez. Confesso que cheguei a corar por achar um homem lindo. Possuía traços perfeitos, tez branca, olhos pretos, cabelos longos, lisos e pretos. Era um elfo belíssimo. Foi a melhor comparação que consegui encontrar até hoje.
Não te envergonhes. Se não achares lindo um anjo, como apreciarias as demais belezas do universo?
Sim, de fato, por vezes me esquecia de que era um anjo. Alguns diziam que foi um anjo. Talvez os últimos estivessem enganados.
Levantemos. Tens fome. Conheço um lugar onde poderás comer tranquilamente, bem como poderemos conversar sem sermos incomodados.
Não andamos muito, mas percebi que por tudo que tinha passado, ainda tinha as pernas trêmulas, e caminhava com alguma dificuldade.
Uma torta de chocolate, por favor.
Teria que ser açúcar para dar cabo daquela fome bem rápido, e teria que ser chocolate para que talvez a sensação de bem-estar por ele proporcionada me ajudasse a voltar ao eixo.
O prazer o tira do eixo, e não o contrário.
Então o que sugere que eu faça?
Não me permito sugerir, somente analisar.
Por quê?
A culpa pela falha seria minha, bem como os louros do sucesso.
Pensei que tentava as pessoas, para que elas fizessem o mal.
Fosse uma pessoa comum, e teria dado uma estrondosa gargalhada, certamente, pois futuramente percebi o quão absurdo foi meu comentário, mas ele era discretíssimo, e limitou-se a sorrir, enquanto abanava a cabeça.
Não, não as tento, como dizes. Limito-me a apreciar o que fazem. Depois de tanto tempo, experimentei convosco o que há de mais ignóbil e ultrajante em cada pecado imaginável ou não pelo homem ordinário. Note-se que simplesmente acompanhava os impulsos doentios de todas essas pessoas, e não os estimulava. Primeiro porque não me permito, e segundo porque prefiro que seja natural a opção pelo mal. Parece-me um estupro a idéia de forçar uma pessoa a fazer o mal.
Condenas, dessa forma, o estupro?
É uma conclusão precipitada. Quando um ocorre e delibero participar passivamente, geralmente a lascívia do ato me enche de um êxtase para vós sem comparação, para por fim as lágrimas dela despertarem em mim os sentimentos de anjo, e chorando também me afasto diante de tal perversidade.
Não compreendo... quer dizer que há uma dualidade?
Pior que a dualidade que há em vós. Em vós o bem é tímido, e muitas vezes o mal triunfa sem fazer grande esforço.
Mas tivemos grandes nomes que se esforçaram para fazer o bem vigorar na Terra.
De fato. Mártires que passaram e passam ainda para despertar a humanidade que modorra entre o prazer e a razão. Esforços louváveis, não obstante inúteis para uma grande maioria.
Por quê?
Simples: fortaleceu a vontade de quem já a possuía, e para quem nunca a teve, foram completamente inúteis. Uma minoria se convenceu de que a opção pelo bem é a melhor.
E tu, pensas que concluíram erroneamente?
Seus olhos faiscaram em ódio, e para minha grata surpresa o meu pavor foi infinitamente menor que o de outrora, apesar de no susto ter largado os talheres e mordido a língua, misturando o sabor do sangue e do chocolate. Talvez a presença dele começasse a me afetar de maneira mais profunda, pois a mistura me pareceu saborosa, apesar de meus esforços por repelir tal idéia.
Que bom que já sentes menos medo, pois serei tão autêntico quanto teu pensamento é comigo, e a respeito da tua pergunta, por que a hipocrisia e a questão velada? Por que segundas, terceiras e enésimas intenções?
Perdoe-me.
Foi sincero o pedido, pois percebi que ele acalmou-se no mesmo instante.
Por que tu optaste pelo mal?
Em tempo oportuno responder-te-ei.
Era difícil acompanhar sua impecável linguagem, na qual figuravam tantos termos e construções eruditas.
Ele estava certo. Sentia que o prazer do chocolate aliado, a contragosto meu, ao prazer do sangue, não só me tirava do eixo como ainda me fazia pensar de uma forma estranha para mim, até o momento. Pedi outra torta.
Era tarde.
Sim, é melhor voltares para tua casa.
Posso vê-lo amanhã?
Irei à tua casa.
Como!?
Pensei em inventar uma desculpa, mas felizmente a tempo me lembrei de que ele preferia a sinceridade.
Não me sentiria à vontade.
Ele sorriu, como fez outrora.
Estamos começando a nos entender. Quem sabe amanhã não lhe conto minha história, e respondo à tua pergunta? Irei assim que teu pai terminar de lavar a louça do almoço, para não importuná-lo. Sugiro que o avise, para que ele não tenha uma surpresa desagradável.
Ao se despedir de mim osculou-me o rosto, com uma ternura absolutamente indescritível. Não há como comparar. Lembrei-me de que ele era um anjo, e isto tornou minha vergonha quase suportável.
Eu te saúdo.
Num átimo me veio à mente a resposta, num lance que não me lembro de ter ocorrido novamente. Talvez ele houvesse me escolhido, se o fizera, por eu ter algum conhecimento bíblico, ainda que bem pequeno?
Amigo, a que vieste?
Sorriu e foi embora, pagando a conta, fazendo com que o segundo pensamento fosse o de que deveria chamá-lo para sair mais vezes, e o primeiro, menos mesquinho e medíocre que o segundo, foi o de tentar entender o que ele quis dizer com isso.
Já em casa, lendo a Bíblia para tentar melhor compreender o que ele quis dizer, repassei o trecho e contextualizei as duas frases.
Mateus, capítulo vinte e seis, versículos quarenta e nove e cinqüenta...
Que foi, meu filho?
Nada, pai, só lendo um pouco o Evangelho.
Era inútil. No máximo poderia inferir a sua intenção, e àquela altura isso não seria o suficiente. Então comecei a divagar noutra direção. Por que ele me escolhera? Ou visitara outras pessoas também? Afinal, era senão impossível, no mínimo impraticável sair por aí falando que o vimos. Fiquei imaginando de quais recursos nos utilizaríamos para veladamente transmitir esse fato: encontrei-me com Lúcifer. Sim, Lúcifer. Inicialmente evitava o nome, tanto no pensamento quanto nas palavras, mas o cotidiano veio a me fazer redimensionar o nome e o anjo. Hoje seu nome já não mais me incomoda. Mas àquela época isso ainda não era fato.
Como farei? Não há um único amigo, um único parente ao qual poderia relatar tais acontecimentos. Um psicólogo? Por certo no mínimo me receitaria uns psicotrópicos poderosos para dar cabo do meu delírio, e no máximo, bem, nunca sabemos o que uma pessoa pode fazer no máximo, principalmente instituída de tanto poder social, econômico e temporal, como é um médico. Mas talvez uma atitude mais drástica seria me internar. Antes disso digo que não o vejo mais. Não, não. Talvez por influência do meu pai, sempre me mantive afastado de três que lá estão para nos acudir: medicina, polícia e justiça. Quem não deve não teme, mas como o seguro morreu de velho, achei que terminamos empatados na sabedoria popular. “A missão dos cientistas é provar que a sabedoria popular está correta”. Seja verdade ou não, optei por seguir esta assertiva.
Filho, vem comer.
Estranho. Estava gostoso. Ao menos tudo tinha o sabor que deveria ter. Mas estava sem graça. Faltava um tempero que experimentara recentemente. Medo? Raiva? Sangue?
Tá estranho.
O que, meu filho?
Ah, nada pai, tava viajando aqui.
Sorri forçadamente, mas meu pai não me perguntou nada.
Estava ficando perigosamente sincero, de um momento para o outro. Nunca pensei que em um único dia, uma pessoa pudesse fazer com que a falsidade que sempre me acompanhou perdesse tanto terreno, a ponto de ser sincero quando não devia.
Tá ruim?
Não, não falava da comida. É mais umas coisas que tem acontecido comigo.
Tipo?
Ah, sei lá. Sonhei umas paradas meio estranhas. Sonhei que conversava com o... o dito cujo.
Você tem que parar com aqueles jogos, principalmente antes de dormir. E vê se reza antes de dormir também.
Vou fazer isso sim.
Faz mesmo.
Quando meu pai não discorria extensamente sobre algum assunto religioso, geralmente era de poucas palavras. Sucinto, direto, e sincero. Admirava isso nele, apesar de às vezes preferir que ele equilibrasse um pouco, sendo mais sucinto no primeiro caso, e menos nos demais. Mas a vida é assim mesmo. O ideal seria o caminho do meio. O ideal seria o equilíbrio. O ideal seria temperar isso com sangue.
Tô satisfeito, pai, licença.
Não vai terminar de comer?
É que comi na rua, tem pouco tempo.
Li em seu rosto a reprovação. Era justo, pois pessoas passavam fome naquele instante, e jogar comida fora não era do nosso feitio, por questões principalmente éticas.
Joga pros cachorros lá fora. E da próxima vez, come mais cedo na rua.
Tranqüilo. Ah, pai, amanhã um amigo meu vem aqui.
Quem?
Um cara gente boa, que conheci quando fui na casa do Armando.
Era o suficiente. Meu pai gostava muito do Armando. Um amigo de infância, com o qual sempre me identifiquei bastante. Uma pessoa boníssima, e meu pai sabia disso. Se era amigo do Armando, seria uma pessoa boa também. Não gostava de mentir para os meus pais, mas ali seria difícil encontrar outra saída.
Que horas?
De tarde, depois do almoço.
Do dele ou do nosso? E sorriu com ironia.
Sempre almoçamos tarde. Algo que até o momento não conseguimos vencer. Acordamos tarde, tomamos café tarde, e almoçamos tarde.
Do nosso.
Então tá bem. Ah, qual o nome dele?
Por sorte eu estava indo para meu quarto, e meu pai não pode ver que fiquei lívido, sem resposta.
Quê?
O nome do seu amigo.
Lúcifer, pensei. E no pensamento ficou. Em um segundo ou menos, me ocorreu que não seria lícito usar de qualquer outro nome para referir-me a ele, um nome que adornasse as pessoas que caminham entre nós. Teria que ser um nome que ninguém utilizasse. Então me lembrei de quando ele se despediu de mim.
Judas.
Judas!?
É, achei estranho também, mas vá entender.
Bem, à época de Jesus havia também São Judas Tadeu, talvez seja em homenagem a ele... mas por que não Tadeu? Logo Judas? A última pergunta carregava certo tom de inconformismo.
Fiz um gesto com os ombros, dando a entender que não fazia a menor idéia do motivo. E realmente não fazia.
Amanhã pergunto pra ele.
Melhor não, deixa pra lá. Às vezes ele não se sente à vontade pra falar a respeito.
Beleza. Vou dar um tempinho lá no computador.
Vai ficar com aqueles joguinhos de novo? Depois sonha com o que não deve e não sabe porquê...
Só um pouquinho.
Então me ocorreu a idéia. No computador, entrei num desses chats e falei que encontrara com Lúcifer. Como era esperado, ninguém me levou a sério. O que de fato sequer me incomodou, pois o que eu queria era ser ouvido, e externar os fatos, independente de como aquilo chegaria a eles ou elas. Se levavam a sério, ou se riam, não me importava. A maioria que de certa forma levou a sério eram adeptos do satanismo, e ante uma série de perguntas sem sentido que me faziam, preferi deixar o computador. Era perder tempo.
Não deiteis aos porcos as vossas pérolas...
Estava difícil, pois eu queria conversar com alguém a respeito, alguém inteligente, que ficasse intrigado com o que Lúcifer falara, e comigo tentasse esquadrinhar o sentido oculto ou não de suas palavras.
Pesquisei na internet, procurando a respeito de pessoas que o haviam encontrado. Em vão. A maioria relatava situações esdrúxulas, de um ser com chifres, rabo, pés de bode e um tridente. Ridículo.
As pálpebras pesavam, e fui então me deitar.
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