Já percebeu que geral coloca a culpa no capeta pelas coisas ruins? Ele deve ficar muito puto!
Talvez, cara. Pode deixar que se eu esbarrar com ele eu pergunto isso.
Se esbarrar com ele!? Cê é muito doido, cara. Vai que ele ouve e resolve aparecer mesmo.
Quem sabe? Talvez aí ele pudesse se defender e contar a versão verdadeira.
Versão verdadeira?
Humrum. Dos livros sagrados que a gente tem, a maioria foi escrita a um tempão, traduzida, retraduzida, e provavelmente modificada de alguma forma.
Isso é.
E tem uma coisa que sempre me incomodou.
O quê?
Será que Deus nunca vai perdoar?
O capeta?
É. Porque Deus criou ele também. Assim como criou eu e você. Se a gente fala que Ele é nosso Pai, também é pai do Lúcifer. Se perdoa a gente, será que não vai perdoar ele? Se sim, por que até hoje não perdoou?
Cara, cê viaja pra caramba! Mas é uma boa pergunta.
É... uma pena que vai ficar sem resposta.
Sem suor. Sem choro. Desta vez o despertar foi tranqüilo. Confesso que achei peculiar sonhar com este diálogo, que precedeu a noite em que me encontrei com Lúcifer.
As horas se arrastavam, e a manhã me convidava a consentir com Einstein que o tempo é, de fato, relativo. De tal forma aquela manhã foi penosa que escrever sobre ela é maçante. A ansiedade ria-se de mim, e dos meus esforços patéticos para me ocupar por mais de cinco minutos. Mas assim como tudo que é bom acaba, o que é ruim acaba também. E após ter revezado entre o computador e a televisão umas cinco vezes, sem me vangloriar de ter opções tão medíocres, a voz de meu pai soou como uma trégua:
Vem comer!
Almocei sem saber ao certo o que comia, conseguindo a proeza de falar menos que meu pai, quando ele era sucinto. Não me recordo bem, eu confesso, mas acredito que isso só seria possível se nosso diálogo se resumisse a monossílabos. Enfim, o que importa é que isso não importa.
Que que tá olhando?
Quer ajuda pra lavar a louça?
Tô duro.
É só pra te ajudar mesmo.
Eu ficaria feliz de ver meu pai rir daquela forma, se não soubesse o que aquilo riso quis dizer. Mas não fiquei muito nervoso, pois como ele era de rir pouco, achei que contribuí para que ele ficasse um pouco mais contente.
É sério!
Precisa não, filho. Vai arrumar lá em cima pra receber o seu amigo.
Será que ele evitou o nome de propósito? Não sei, mas o sorriso sumiu no mesmo instante. O que era natural, pois não era comum meu pai sorrir. Coincidência ou não, resolvi subir e arrumar o terraço, aonde poderíamos conversar sem grandes incômodos.
Em mais de vinte anos a campainha nunca me acertou com tanta força, pois bastou que ela tocasse para que meu coração respondesse numa insana arritmia, e mais forte que a campainha foi minha decepção: era uma outra pessoa que vinha me buscar.
Um amigo meu tá chegando aí.
Quem?
Cê não conhece não.
Tcho ficar aí com cês, cara!
Nem rola. Ele tá querendo conversar uma parada séria.
Pô... sacanagem. A gente se vê então, mermão!
Falou!
Assentei-me no sofá. Meu semblante seguramente estava desagradável:
Que cara de merda é essa?
Ah, pai, achei que era o Judas.
Cê mal conhece o cara, e já tá cheio de coisa assim? Tô te estranhando...
Ih, sai fora! É porque ele tem uma parada séria pra falar comigo.
Meu pai ergueu a sobrancelha esquerda, com um sorriso de desdém, a indicar que, como dissera, continuava “me estranhando”.
Ah, pai, quer saber? Deixa pra lá.
Último talher. No instante em que ele enxugou as mãos, a campainha soou novamente. Dizem uns que Deus é brasileiro. Nesse caso, Lúcifer é britânico.
Abri a porta sabendo que estaria ali.
Sapatos pretos, calças pretas, de brim, e uma camisa cinza, de manga comprida, de linho, provavelmente. Simples e elegante. A preferência pelo preto e por cores escuras teria algum motivo especial?
Meu caro Gabriel, como estás?
Sê bem-vindo à minha casa, Judas.
Com licença.
Toda.
Deixe-me apresentá-lo ao meu pai. Pai, este é o Judas. Judas este é o meu pai, Mazo.
Prazer, Mazo.
Judas, e o prazer é meu, senhor Mazo.
Aceita uma água, um suco?
Um pouco de água, por gentileza.
Mais?
Não, fico agradecido, senhor Mazo.
Qualquer coisa, pai, estaremos lá em cima.
Tudo bem. Fique à vontade, Judas.
Lúcifer acenou com a cabeça, sorrindo simpaticamente para meu pai.
Vamos ao terraço, aonde poderemos ficar mais à vontade.
Como achar melhor, afinal, és o anfitrião.
Pareceu-me que o sorriso foi um pouco menos simpático. Talvez estivesse enganado.
Espero que não se incomode pelas cadeiras simples, pois como vê, não somos ricos e dados a despesas desnecessárias.
É plausível. As cadeiras estão limpas, e cumprem o seu papel de serem confortáveis e manterem-nos sentados. Mais que isto é um luxo desnecessário, que me deixaria extremamente satisfeito, pois raras vezes me contento com pouco. Contudo... paciência.
Porventura estaria me acostumando com aquele jeito sincero e mordaz? O comentário passou-me praticamente despercebido.
Responderás minha pergunta?
Não.
Por que isto não me surpreende?
Talvez porque saibas que não me fio pela verdade?
E sorriu ironicamente. Sorri também.
No entanto, te contarei o que achar que convier. Não me interrompa, até que eu permita.
Perfeitamente.
O universo é dividido em diversas regiões, e para cada uma dessas regiões há uma legião de anjos, que seguem uma determinada hierarquia. O anjo mais poderoso comanda essa legião, e esse anjo está submetido a um comandante ainda mais poderoso, que comanda diversas regiões, algo semelhante aos vossos prefeitos, governadores e presidentes. Dentro da região em que estamos, eu era o anjo mais fraco. Tão logo, me foi conferido o comando do planeta mais atrasado: a Terra. Grosso modo, eu era o prefeito da Terra, e possuía meus assessores, bajuladores, e todo o aparato político-celestial necessário. Quando cheguei aqui, a Terra já existia a considerável tempo, pois os anjos chegam aos seus planetas somente quando os mesmos já estão em condição de possuírem algum tipo de vida primária. Comandei os técnicos para que procedessem as mutações necessárias para os seres se desenvolverem, ao longo dos milênios, até que chegássemos a um ser que poderia abrigar uma alma humana e outros que poderiam sustentar-lhe a existência. E este dia fatídico chegou.
Lúcifer então parou sua explanação. Eu estava estupefato. Então Lúcifer cuidou desse planeta por milhares de anos? Foi seu chefe? Ainda mais: significava que de fato havia vida em outros planetas também?
Sim, para as três.
No entanto, qual a diferença entre os mundos que os anjos recebem? Quero dizer, recebeste a Terra, como disseste, o mundo mais atrasado. E os anjos mais poderosos que tu? Receberam planetas em melhores condições?
Não. Um anjo sempre acompanha o planeta desde o início. Uma vez iniciada a missão num mundo, geralmente os anjos lá ficam até completá-la. É raríssimo um anjo tomar do trabalho de outro. Eis o que ocorre: o nosso “governador” verifica a potencialidade de um mundo, algo que para vós ainda é incompreensível, mas esse anjo que governa uma região possui o poder de prever o quanto evoluirão aquele mundo e seus cidadãos, e a que velocidade.
A Terra é tão ruim assim?
Algo até então nunca visto nesta região, e até onde ouvi, nem mesmo nas regiões circunvizinhas. Um cruzamento entre uma evolução medíocre e cidadãos que alcançariam novos horizontes de perversão e maldade. Um mundo fadado a falhar. E por pouco assim não foi.
Como Deus permite semelhante situação?
Como disse: o anjo responsável por essa região poderia prever seu desenvolvimento, no entanto quem são os responsáveis? Vós!
E pela primeira vez ele ergueu a voz, e tanto que poderia ser ouvido em qualquer canto da casa. Olhei assustado para a escada, mais preocupado se meu pai resolvesse subir, do que com o fato de Lúcifer ter gritado.
Ele saiu.
Respirei, quase aliviado. Uma preocupação a menos.
O que quero dizer é que Deus permite que façam o que bem entenderem, naturalmente sendo auxiliados por nós, os anjos. Esforçamo-nos para levar-vos ao caminho do bem, do qual diversas vezes de bom grado saís. Normalmente basta inspirar a humanidade de determinado planeta para que ela evolua. É evidente que nos casos de humanidades pervertidas este processo é mais longo.
Esse foi o caso da Terra?
Não seja estúpido! Se fosse, eu não estaria aqui a dialogar contigo.
Lúcifer estava correto. A pergunta fora estúpida. Dali em diante eu passaria a pensar duas vezes antes de verbalizar a pergunta, sabendo que tão só aparentemente tal medida era eficaz. Mas havia uma vantagem em mantê-la na esfera das idéias: Lúcifer ficava menos irritado com a estupidez do que no caso da mesma pergunta ser verbalizada.
A Terra foi uma exceção. Quando a humanidade começou a evoluir, e começou a distinguir o bem do mal, eu a intuía para que fosse boa. Esforços inúteis. Cada vez mais se chafurdava no mal. Parecia ser irremediável a situação. Fiz o que estava ao meu alcance. Já não sabia mais o que fazer ante tanta atrocidade! As rogativas dos que eram esmagados pelos maus eram incessantes, e nada as apaziguava! O mal se alastrava de maneira assustadora! O bem avançava rastejando, enquanto o mal parecia correr de uma maneira cada vez mais frenética! E quando estava para desistir, e comunicar ao meu superior que falhara, algo que anjo nenhum havia feito até então, me ocorreu uma pergunta: o que há no mal que tanto os atrai? Por que podendo optar pelo bem, tantos optam pelo mal? Nós anjos conhecíamos o mal como num compêndio, diferentemente do bem. Dispúnhamos da capacidade de comungar convosco, quando se propunham a praticar o bem, e vos dar força para nele prosseguir. Partilhávamos desta forma de vossa energia, e vós da nossa, numa simbiose que proporcionava paz e bem-estar para ambos. Todavia, ante a primeira pergunta, me decidi que antes de desistir, descobriria as razões pelas quais falhara, os motivos que os faziam se portar da maneira mais vil e perniciosa que esta região já presenciou! Era proibido, e não me ocorreu o motivo, até que descobri por conta própria. Da primeira vez em que comunguei com o mal, percebi um prazer diferente de tudo que conhecera até então, e no mesmo momento entendi porque agiam daquela forma. Naquele momento percebi que falhara miseravelmente.
Por que sentiu prazer no mal?
Não; porque tive medo de repetir o ato. Foi nesse instante que percebi que parte de mim passara a ser humana, e percebi que foi o que na verdade eu desejara. Buscava pretextos para sentir o que sentiam; queria descobrir o gozo do mal, que tanto os deliciava!
Impossível. Não pude conter mentalmente a pergunta. E ele percebeu imediatamente.
Se valeu a pena? Se valeu a pena!?
Agarrou-me pela camisa, com uma força descomunal, erguendo-me até quase bater a cabeça no teto, com as costas prensadas contra a parede. Não só seu olhar trazia o mesmo ódio de quando o vi pela primeira vez, mas seu rosto estava desfigurado, fez-me recordar um pouco algumas pinturas de Lúcifer, nas quais ele figura com chifres, rabo, pés de bode e tridente. Se havia uma réstia de anjo, era imperceptível. Estava mais humano que nunca.
Era esperar demais de ti! Se já não tivesse banido o arrependimento dos sentimentos que me adornam, agora seria ele a dar o parecer de nossa reunião!
Largou-me, simplesmente, pois se houvesse me atirado ao chão com a mesma força com que me erguera, provavelmente estas linhas jamais seriam escritas.
Não terei piedade uma segunda vez.
Achei que ele iria me matar. Foi a primeira e a última vez que tive esta impressão. Futuramente ele me revelaria que era contra seus princípios matar seja lá o que fosse.
Tu és... tu és....
E sorriu.
Um gênio!
Algumas atitudes suas jamais consegui entender, mas no dia me recordo de que suspirei, aliviado por ainda estar vivo. Lúcifer passou então a monologar, enquanto eu permanecia agachado no chão, tentando encontrar alguma lógica em tudo o que estava acontecendo.
“Did you exchange a walk on part in the war for a lead role in a cage?”
Paz pelo Prazer; Segurança pela Liberdade; Sentimentos pelas Sensações; Alma pelo Corpo! Haverão, porventura, trocas justas? O próprio trocar não implica na falta de algo? Na impossibilidade da coexistência dos dois, ou da aquisição de ambos? Se valeu a pena? Antes eu achava que valia a pena ser anjo, hoje penso que não. Tampouco ser humano. E talvez mais baixo que isso seja alguém que não é inteiramente um, nem outro; algo que transita entre os dois. Aproveita-se o óleo de cozinha para se preparar os alimentos, e a água é essencial à vida, no entanto em que se utilizará a mistura de ambos? Acaso beber-se-á o óleo junto com a água, ou colocar-se-á água junto com o óleo na frigideira? A mistura geralmente não consegue cumprir bem nem um papel, nem outro. É necessário descobrir uma função para ela, ou então desfazê-la.
Enfim resolvi quebrar o solilóquio no qual eu, aparentemente, não estava inserido.
E quanto a ti?
Não creio haja uma função para mim. Ao menos nesses milênios não a encontrei. Talvez desfazendo o processo, haja uma função para mim novamente. Talvez expurgando de mim o lixo humano, eu volte a sentir que vale a pena ser anjo. Ou não. Contudo são hipóteses, somente. Já tentaram me convencer a retornar. Mas isto ficará para um próximo dia.
E sorriu de maneira enigmática, com um brilho diferente no olhar, como se quem estivesse descobrindo tudo aquilo fosse ele, e não eu.
Amanhã à noite irás à minha casa.
No inferno? Pensei.
Desta vez ele riu. Fosse séria a pergunta, e ele não riria, seguramente.
Retirou do bolso um pequeno cartão.
Estou hospedado neste endereço.
No hotel mais caro da cidade?
E podes me chamar mais vezes para sair.
Pagarás a conta?
Não.
Sorriu e desceu as escadas.
O que me faz recordar de que quero te apresentar uma pessoa.
Ele me fitou nos olhos, com um largo sorriso, me fazendo crer que me falaria algo que eu gostaria muito de ouvir. Ou que detestaria.
É um succubus. Chama-se Lilith.
Optei pela primeira impressão.
Vai preparado, com grandes expectativas, pois este succubus, na verdade, era uma ajudante na época em que vim para este mundo.
Ou seja, é um anjo.
Não; uma anja.
E sorriu com mais malícia que antes, se é que tal era possível.
Até amanhã, Judas.
Até amanhã, Adão.
Sem beijo desta vez. E não soube o que foi pior: ter desejado o beijo ou ter me envergonhado disto. Lúcifer simplesmente virou-se e foi embora.
Cê não ofereceu nada pra ele comer?
Ele foi embora cedo, pai, logo que você saiu.
Você sabe que horas eu saí?
Sem argumentos. Sei sim! Lúcifer, antes de dar um berro, me falou que você tinha saído. É, não funcionaria.
Mas ele não ficou aqui muito tempo não.
Porra, brincadeira!
Foi mal, pai.
Da próxima vê se lembra desse pequeno detalhe: não é porque a gente almoça tarde pra caramba que todo mundo almoça também! As pessoas normais sentem fome mais cedo.
Ele suspirou contrafeito, fazendo não com a cabeça e movimentando suas mãos, a indicar que era melhor esquecer o ocorrido.
E como que foi? Tudo tranqüilo?
Tranqüilinho.
Lembrei de todo o ocorrido daquela tarde, enquanto pensava que nada a definiria tão imprecisamente quanto esse termo.
Tranqüilinho.
Repeti pra tentar me convencer. Naturalmente, fui mal sucedido.
Que bom, meu filho. Me pareceu que ele é gente fina.
Humrum, gente boa pra caramba.
Descobriu porque ele se chama Judas?
Uai, não foi você que falou que não era pra perguntar, porque talvez ele não gostasse de falar a respeito?
Foi... mas pensei que mesmo assim você não resistiria à curiosidade.
E deixar de ouvir os conselhos do meu velho?
Ambos sorrimos, numa disputa de quem era mais irônico.
Já terminou de comer?
Já, e também saquei que é melhor eu vazar. Vou pro computador.
Vai com Deus!
Sabíamos que ele não estava irritado pela minha ironia, mas acho que ele pensou que era melhor fingir que estava, para que eu eventualmente no futuro não faltasse com o devido respeito. Pensei da mesma forma. É um fingimento plausível, mesmo necessário, eu diria. Pelo menos assim eu achava.
Succubus, succubus... procurava na internet. Sabia o significado, no entanto queria colher mais informações. Foi quando então me ocorreu: se na internet, geralmente, dizem que Lúcifer é muitíssimo diferente daquele anjo meio humano que agora eu conhecia, por que as informações sobre os succubus seriam mais fiéis? Desisti da internet definitivamente, para procurar informações sobre seres que a maioria só conhecia na ficção, nos mitos e nas lendas.
Uma anja...
Monologava, deitado em minha cama. E com minha imaginação pervertida foi fácil elaborar detalhadas ações que eu teria na noite seguinte. Imaginava uma boneca inflável com vida, que se submeteria às minhas fantasias descabidas. Mal sabia que era bem o contrário...
Uma anja...