domingo, 5 de setembro de 2010

O Anjo Derrubado - Capítulo III

Ela fazia de tudo. De tudo. Era um filme pornográfico no qual ela era a atriz e eu o ator principal. Satisfazia-me de todas as formas imagináveis ou não. É bem verdade que havia algo estranho. O ambiente era só a cama. Sem paredes. Sem nada. Não havia um elo temporal entre as ações. As noções de espaço e de tempo haviam desaparecido. Mas o prazer é inebriante, e prescinde de lógica. Mas quando tal pensamento me incomodou uma vez mais e decidi analisá-lo ainda que mediocremente, entre um orgasmo e outro, percebi que havia algo muito errado, e foi quando Lúcifer apareceu ao lado da cama, com rabo, chifres, pés de bode e tridente.


Estava muito suado, bem como o travesseiro. Não foi necessário olhar para baixo para concluir que seria melhor tomar um banho e me limpar. A visita noturna do succubus seria um prelúdio daquela noite? E a aparição repentina de Lúcifer na sua forma, digamos, humana, seria um presságio? Divagações inúteis.

O café tá pronto, pai?

Meu pai adorava me ver de férias. Sem horário para dormir, sem horário para acordar, sem horário para comer. Ele acharia um luxo um professor ter tanto tempo de férias, se não soubesse o que encaramos dentro de uma sala de aula.

Não sei o que me incomoda mais: se é você todo dia buzinando no meu ouvido que dar aula é uma merda, ou então você todo dia acordando a essa hora procurando café!

O café tá frio.

Segundo lapso de sinceridade. Desse não haveria escapatória.

Porra, cê tá de sacanagem! Cê tá de sacanagem!

Primeiro Lúcifer, agora meu pai. Queira Deus que eu não me habitue a rostos medonhos e a opressões psicológicas.

Foi mal, pai, foi mal! Escapou, não foi pra te irritar não!

Assim como Lúcifer, ele percebeu a sinceridade, ainda que utilizando de meios menos confiáveis.

Esquenta ali no microondas.

O tom carregava certo arrependimento por ter sido mais rude que o de costume. E de fato não agradava ao meu pai agir daquela forma. Optara ele pelo cristianismo e nele se empenhava sem hipocrisia. Não há transformações mágicas.

Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo.

A frase a respeito do microondas fora a última a ser pronunciada. Tomamos o café em absoluto silêncio verbal, mas talvez em função dos últimos dias eu consegui ouvir nossos monólogos mentais, que devidamente ordenados formariam interessante diálogo, de palavras que com freqüência eram pensadas e não ditas.

Perdoa-me, pai, por ter sido sincero na hora errada... e por não ser sincero. Perdoa-me por não te contar a respeito de Lúcifer. Perdoa-me por dia após dia reclamar das mesmas coisas, e não notar teu esforço em manter tudo em ordem.

Entre uma golada de café e uma mordida no pão eu coçava os olhos, mero artifício para que meu pai não notasse que eles estavam marejados.

Perdoa-me, filho, por ter sido rude agora como noutros momentos, por não ser tão bom quanto eu gostaria de ser. Perdoa-me por parecer alheio e não demonstrar minha preocupação com tuas escolhas e aflições.

Estaria meu pai coçando os olhos também?

Estava puxando do peito com muita força, uma força que não era física, mas nem por isso deixava de carregar enorme potencial, e por fim a coragem deu um impulso final. Saiu mais como um vômito, no susto, do que como algo previamente planejado.

Pai... obrigado e desculpa.

Tudo bem filho, tudo bem.

A realidade não comporta ilusões estapafúrdias, como pais e filhos que nesse momento se abraçariam em pranto e diriam: eu te amo! Eu te amo também! Assim como a realidade não comporta demônios disformes e patéticos. Aquelas frases carregavam toda uma história, e para nós aquilo foi um avanço. Um avanço que teve como ponto de partida a sinceridade dum momento. Uma sinceridade que teve origem nos encontros com Lúcifer. Lúcifer engendrou nosso progresso, ainda que pequenino e tímido.

Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons.

No sertão brasileiro acreditava-se que os frutos da lobeira eram venenosos, e segundo uns, até hoje a lenda ainda permanece em algumas regiões, em função dos bois morrerem quando os comiam. Na verdade as sementes desse fruto é que causavam a morte dos bois, pois elas bloqueiam o esfíncter estomacal, impedindo o ciclo normal da alimentação, tendo naturalmente consequências fatais. Descobriu-se posteriormente que o fruto da lobeira possui diversas propriedades terapêuticas, entre outras funções positivas que ele possui, como complementar a alimentação do povo sertanejo, através de uma geleia que é produzida com esse fruto.

Os homens julgaram que o fruto era mau, afinal, aparentemente o era. Os mesmos homens viriam a julgá-lo como sendo bom. Na máxima evangélica eu confio, não confio, entretanto, no juízo dos homens.

Após despedir de meu pai eu saí para caminhar um pouco, aproveitando o ócio daquele mês que infelizmente passaria rápido. Ia margeando o rio Paraibuna, tão fétido quanto da primeira vez em que me recordo de ter passado ali por perto. Mas a vida se encarrega de equilibrar as coisas, e havia uma brisa prazerosa, que deslizava delicadamente pela minha face, ainda que a mesma brisa tornasse pior o miasma que aquele rio exalava. Fiquei rememorando a última conversa com Lúcifer. Era algo simplesmente fantástico. Mas ele disse que por pouco a Terra não falhara. Mas se ele, que fora incumbido de cuidar da Terra, falhara, quem conseguira fazer com que a Terra não falhasse? Ele mencionou que era incomum um anjo tomar do trabalho de outro, mas não afirmou que era impossível, assim como mencionou alguém que tentara o convencer de que o caminho que ele escolhera não era o melhor. Pelo visto esta pessoa falhara, pois Lúcifer ainda permanece em parte humano, no que há de perverso do humano. De toda forma, Lúcifer me falou que me contaria naquele dia o que ocorrera, e as dezenas de imagens de Lilith que me vinham à mente não me permitiam raciocinar claramente a respeito de coisa alguma. Eu desejava ansiosamente encontrá-la, o quanto antes. O que havia em mim de pudor se esvaia a cada passo. Quando deliberei voltar, creio que o pudor se rendera à Lilith também, sabendo da ineficácia de qualquer simulação de um puritanismo que eu nunca tive. Parecia que eu já não mais caminhava, quase corria, como se inconscientemente eu acreditasse que encontraria Lilith quando voltasse pra casa, como se o que me separasse de Lilith fosse a distância, e não o tempo.

É... é impossível!

Parei ao dizer isso.

É impossível que eu ame alguém que sequer conheço.

E nem precisava. Que tolice! Eu sabia que ela era estonteantemente bela, e para mim era tudo. Quando ouvimos falar de uma pessoa, e sabemos que seus dados circulam pela internet, e não de maneira ilícita, mas porque esta mesma pessoa deliberou assim fazê-lo, o que primeiro procuramos? Fotos, naturalmente. A beleza é o que primeiro nos chama a atenção. Se eu reprovo isso? Preferia não opinar, somente analisar, ainda que de maneira superficial. Talvez estivesse me tornando um mero plágio de Lúcifer, buscando em mim a angelitude que eu via nele, pois sabia perfeitamente que a podridão humana que o consumia era a minha essência; o que me faltava era a outra parte.

Repentinamente um desespero se apossou de mim, como se eu chegasse à conclusão de que ainda faltava muito para alcançar minha casa, como se tivesse me afastado demais do porto que era para mim a segurança, e que teria que caminhar demais para regressar. Não era a casa que estava distante, pois em alguns minutos eu lá chegaria, mas o meu lar estava começando a ficar muito distante, e eu não dava sinais de que estava regressando, e sim me afastando cada vez mais...

Andai enquanto tendes luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai.

Eu tremia, e não em função do frio, pois não obstante o inverno, não ventava muito, e o sol estava quase a pino. O corpo estava quente, o que sentia frio talvez fosse a alma.

Enfim ao chegar em casa, fui tomar um banho quente.

Ô Gabriel, precisa disso tudo!? Tá parecendo uma sauna!

Tava com frio, pai.

Pelo visto muito frio, né? E nem tá tão frio assim.

Já tô saindo.

Vem almoçar, enquanto a comida tá quente.

Sim, afinal, se eu esperasse poderia comentar uma vez mais a respeito da temperatura dos alimentos, e certamente se isso ocorresse o final não seria feliz.

De ansiedade para que a noite chegasse me assaltou um profundo pavor do que poderia dali suceder, e duelavam coração e genitália, e o vencedor escolheria se o tempo correria mais depressa ou mais devagar. Um duelo patético, aonde naturalmente não houve vencedor e o tempo assistiu com ironia, ditando seu ritmo indiferente à minha agonia. Estava sem fome, mas consegui terminar o almoço, pois não gostaria de repetir a desfeita de desperdiçar a comida. Parecia chumbo no meu estômago. Aflito, tentava distrair a mente, para que ela não se ocupasse nem com o pavor nem com a volúpia, mas em vão, tudo o que eu fazia era maquinalmente, até mesmo conversar eu o fazia maquinalmente, o que pude comprovar quando um amigo me ligou.

E aí, cara, vamo sair hoje?

Vou sair com uma mulher hoje, cara.

Que isso, hein! Tá pegando?

Não sei, um amigo que vai me apresentar.

Pô, Gabriel, tu já foi melhor que isso, brother! Precisando de neguinho dar idéia em mulher pra ti?

Que conversa ridícula.

O tom foi mais de quem constata, e menos de quem ofende.

Pô, mano, foi mal, era só brincadeira. Mas tá de boa, depois a gente se fala.

Tranqüilo. Foi mal aí.

Duas frases isentas de veracidade e sentido, contrastando com a última, absolutamente sincera.

Tem erro não.

Falou.

Falou.

Não é do meu feitio falar esse tipo de coisa. Sempre tranqüilo, sereno, agradando e engolindo sapo. A troco de quê? De porra nenhuma! Porra nenhuma!!! E as pessoas criando estereótipos, me rotulando disto, ou daquilo, e eu ocupado em mostrar que estão certas! Agora ainda me darei ao luxo do esforço de provarem que estão erradas!? Nem fudeno!!!

Até meu pensamento apresentava certa distorção. Não poderia prever a que nível aquilo chegaria, e infelizmente não estava longe de concluir que chegaria a um nível antes para mim insuportável. Afetos e desafetos estavam para ouvir o que não imaginavam pudesse eu pronunciar. Estaria Lúcifer desatando as amarras que prendiam o meu demônio particular, dentro da minha hipocrisia e da minha carência? Sim, pois futuramente vim a perceber porque me esforçava por me mostrar bom, afável e atencioso. Era mais por mim, e menos pelo outro. Percebia que o outro a mim só recorria no desespero, para encontrar novamente os braços abertos que auxiliariam a se reerguer, para então em seguida se afastar. No entanto, que fazer? Não era melhor ser lembrado de vez em quando, na necessidade, do que não ser lembrado nunca? A sinceridade não colocaria em xeque toda aquela imagem construída nos últimos anos? Que Lúcifer me libertava de algo, era perceptível. O que eu não saberia dizer era se o resultado daquilo seria positivo ou não.

Amei e odiei pessoas conhecidas que me são queridas, pessoas conhecidas que não me são queridas, pessoas desconhecidas que me são queridas e pessoas desconhecidas que não me são queridas. Amei e odiei parte da humanidade e sua totalidade. Amei e odiei Lúcifer. Amei e odiei Lilith. Mas não Deus. Nesse momento odiei a mim, por me ver habilmente adestrado a não ousar odiar Deus. No futuro vim a compreender que era menos por adestramento, e mais pela admiração que adveio por ter tomado contato com o que havia de mais sagrado e nobre em Sua criação: o anjo. Não ousei erguer minha voz a Deus não por medo, medo de não ser perdoado, medo do inferno, nada disso mais importava, mas por respeito, por ver Nele o único que ainda me compreendia, por saber Nele o meu Pai. O nosso Pai. O Pai Nosso.

Para minha surpresa o céu já escurecia e o sol não era mais visível. Melhor roupa, melhor perfume, uns minutos tentando ajeitar o cabelo, o que foi quase inútil, e eis-me à rua, com o coração aos pulos, no qual já não mais havia espaço para amor e ódio. Só havia espaço para Lilith, para aquela noite.

É incrível como o cérebro nos leva praticamente sozinho aonde queremos, quando já sabemos o lugar. Eu disse a ele: cérebro, ficarei pensando em como deve ser a Lilith e em alguma pornografia bacana, e nesse meio tempo você me leva a esse endereço aqui. Mostrei aos olhos, e o cérebro simplesmente disse: sem problemas. Era fantástico. Quando vi já estava no endereço que aparecia no cartão que Lúcifer me entregara.

Pois não?

Tremia.

Ju... Judas... ele está me esperando.

O nome do senhor?

Gabriel.

Eu podia ouvir o telefone que ele segurava tocar, para entrar em contato com Lúcifer.

Primeiro toque. Eu poderia me assentar, colocar algumas dezenas de pessoas em roda, e contar minha vida até ali, umas duas ou três vezes.

Segundo toque. Eu poderia preparar um discurso que falaria ao encontrar a Lilith, e treiná-lo o suficiente para decorá-lo.

Terceiro toque. Esse nem deu tempo de dar a volta no mundo, pois Lúcifer atendeu antes. Mas foi por pouco! Eu cheguei a ver Juiz de Fora no horizonte.

O senhor Judas o aguarda, senhor Gabriel. Por aqui, por favor.

Eu tremia cada vez mais.

O senhor está bem?

Tudo bem, tudo bem.

Ele não acreditou, mas felizmente foi embora e deixou o elevador subir. Lúcifer escolhera o décimo terceiro andar. Agora sim, não só terminei de dar a volta na Terra como conheci cada ponto turístico. Inclusive a muralha da China é mesmo visível da Lua.

Décimo terceiro andar. Lúcifer esperava no corredor, desta vez com uma túnica preta e um olhar sombrio. Parecia um sacerdote das trevas.

Sê bem-vindo, Gabriel. Mas antes, acalma-te. Não quero que conheças Lilith nesse estado.

Eu caminhei trêmulo em sua direção.

Ao chegar próximo dele, ele depositou levemente a mão sobre a minha fronte, e repentinamente me senti sereno, o coração batia no ritmo normal, e a respiração não era mais ofegante.

Com o braço fez um gesto para que entrasse em seu apartamento.

Eu achei que estava preparado para tudo, para a mulher mais estonteante que eu poderia imaginar. Mas não estava preparado para aquilo.

Eva!? O que você faz aqui?

Eu sabia que não era Eva, pois a Eva que eu conhecia não possuía traços físicos tão perfeitos, nem um corpo tão sedutoramente belo. E não tinha no olhar aquela volúpia e nem no sorriso aquele desdém. Eva era minha irmã. Não era filha de meu pai, nem de minha mãe, mas eu a tinha por irmã, e desenvolvi um afeto verdadeiro por ela; lutei comigo mesmo para transcender algumas barreiras.

Que foi, meu irmão?

A voz era repleta de sensualidade e carregada de ironia. Não era Eva. Mas era Eva! Então ela começou a caminhar em minha direção. A parede não estava longe, e um passo para trás foi o suficiente para senti-la esbarrar em minhas costas. Eva tinha agora as duas mãos em meu peito, e inclinou a cabeça suavemente, num gesto que já fizera outras vezes. Eu a abracei confuso.

Então eras tu mesma?

Sim, meu irmão. Eu te amo.

Também te amo, sabes disso.

Não era a primeira vez que ela falava isso, nem eu. Mas era sempre num sentido diverso; um amor diferente.

Não. Hoje eu te amo diferente. Hoje eu te amo naquela cama.

Impossível! Eva nunca seria tão vulgar! Não tive tempo de concluir o terceiro pensamento, pois ela ergueu sua fronte e vagarosamente veio me beijar. Era proposital a demora, para que em mim digladiassem euforicamente sentimento e sensação, por mais tempo. Era linda! Mas era Eva! Mas era linda. Mas era Eva. Mas...

Este é o beijo de Eva? É... indescritível. Eu quis beijá-la novamente.

Que é isso, Gabriel?

Olhou-me surpresa, com o olhar que eu estava habituado, e então percebi que era mesmo Eva.

Perdoe-me Eva, eu, eu...

Então me empurrou contra a parede e... beijou-me novamente, agora de uma maneira totalmente devassa.

Era extasiante e lacerador, ao mesmo tempo. Era como conspurcar algo divino, dos mais sagrados que havia. Eu a sentia como minha irmã, e sabia que aquilo era errado!

Então ela olhou-me novamente com doçura, com as duas mãos em meu peito, para em seguida deslizar a mão esquerda pelo centro do meu tórax, vagarosamente. Passando pelo meu abdômen, ela parou com os dedos no meu púbis.

Não há homem que resista a uma carícia daquela natureza.

Como, como pôde, Gabriel?

Eu olhava para longe, evitando aquele rosto conhecido, enquanto cerrava os dentes com toda a força. Com a mão direita ela me trouxe mais perto dela, e me beijou novamente, enquanto desceu a mão esquerda um pouco mais.

Eva... Eva... eu... eu... a desejo.

É incesto, meu irmão! É pecado!

Era verdade. Mas a verdade já não importava mais. Com sua canhota ela ia acabando com a verdade pouco a pouco, e quando a verdade estava para esvair-se completamente, ela parou, e falou suavemente, com a destra deslizando pelo meu rosto.

Isto é errado, Gabriel. O certo é fazer isso ali.

E me trouxe pela mão junto à cama, que não estava longe.

Éramos três. Meu corpo que era guiado pela Eva, em direção à cama. Meu coração que era esmagado pelo peso dos corpos, que se moviam freneticamente. Minha alma que a cada lágrima derramada sentia mais prazer, e como se sentisse que um estava atrelado ao outro, cada vez mais desejava chorar, para poder gozar cada vez mais também. Nenhum dos três se rendeu. Não porque fossem bons lutadores, mas porque eram fracos demais para derrotar os outros. Quando o coração parecia perder, e junto com ele a alma, Eva gemia baixinho, como se sentisse dor.

Porque, meu irmão, porque está fazendo isso comigo?

E o coração ganhava novo ânimo. A alma dizia para fugir. Mas antes que o corpo aceitasse, Eva deslizava seus seios sobre meu peito, e dizia sensualmente.

Porque está parando, meu irmão? Nesse ritmo levaremos uma semana para o que podemos fazer numa noite.

Assim a noite transcorreu, entre um prazer e uma agonia inenarráveis, que caminhavam juntos. O pecado e o prazer não mais caminhavam de mãos dadas, mas se abraçavam, se beijavam, e a breve momento estariam como Eva e eu... Eva e eu! Ó, Deus! A minha irmã! A minha irmã. A minha irmã... é linda. Tem um perfume inebriante, uma voz capaz de enlouquecer qualquer homem. Sua língua possui algum tipo de veneno, que seda o meu amor por ela. O meu amor... de irmão...

Em dado momento, quando os três pareciam atingir seu limite, Eva falou com a voz chorosa.

Pára, Gabriel!

E ao terminar a frase agarrou-me pelas nádegas e puxou-me contra ela.

Goze comigo, meu irmão!

Eu fiz como ela mandou. Um prazer imenso, nunca antes por mim sentido, que percorria cada parte do corpo. Era como se sentisse mais prazer do que o corpo agüentava. Eu tremia, respirava com dificuldade, e levou alguns minutos para que eu conseguisse concatenar idéias novamente, que fizessem algum sentido. Assim que esse momento chegou, eu comecei a chorar. Inicialmente por ter feito sexo com Eva, com minha irmã. Em seguida, um pensamento me atingiu como um punhal em meu peito, tornando minhas lágrimas amargas de ódio e vergonha. Todo o prazer que eu senti foi substituído por uma vergonha e raiva que também percorreram todo o meu corpo, imobilizando-me por muito tempo.

Eva... Eva... é destra!!!

Virei-me para Eva, agora transfigurada. A mulher que eu via ali em nada me lembrava mais a Eva.

Lúcifer estava sentado sobre uma cadeira, que lembrava vagamente um trono antigo. Ao que tudo indicava, esteve ali desde sempre, observando a nós dois. Lilith estava de pé, ao seu lado, com um vestido vermelho, como se em um segundo tivesse colocado a roupa e mudado de forma. Ambos sorriam com desdém.

E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também.

Nem nós teremos piedade.

Lúcifer pronunciou as últimas duas frases como quem triunfava sobre um verme, como quem elaborou um complicado plano somente para exterminar um inseto, pelo simples prazer de utilizar sua inteligência e perspicácia para melhor mostrar sua superioridade.

Eu vos odeio! Eu vos odeio!!!

Estava nu, com os joelhos e cabeça no chão. Já não sabia mais de que era o choro. Mais uma vez humilhado. Quanto mais desejava não chorar, por já ter chorado tanto, mais chorava.

Então Lúcifer gargalhou. Ele que até então se mostrara tão discreto, agora gargalhava. Era tão alto que poderia se ouvir no prédio inteiro, talvez. Hoje me admiro de ninguém ter ido à porta, para ver o que ouve. Talvez Lúcifer mentalmente os tenha impedido. Não sei. O que sei é que a gargalhada era muito nefasta, era muito escabrosa, era... demoníaca.

Então senti um toque suave em meu ombro, como se alguém que se importa comigo me chamasse silenciosamente. Era Lilith, agora com um semblante lúgubre, que cobria minhas costas com uma pequena manta. O gesto era gentil, chegava mesmo a ter uma ternura velada, um afeto tímido. No seu olhar eu percebi tanta tristeza, tanto pesar, que deixei a cólera que antes me assaltara. Ela se virou e rapidamente entrou num quarto adjacente ao nosso, fechando a porta.

Lúcifer não mais sorria. Trazia agora no rosto a frieza e a calma habituais, no entanto, parecia lastimar a tristeza de Lilith.

A paz corre na alma feito um rio, e o coração a represa. Imagina que fecharam as comportas até a represa atingir o limite, e que após isso quebraram a represa de cima a baixo: isto é o prazer. O prazer é devastador, tudo consome no caminho, a troco da paz. A água corre violentamente, e o espetáculo é de curtíssima duração. Foi isso que eu te mostrei. Mas não basta mostrar-te o prazer que devasta, é preciso também mostrar-te as conseqüências dele. Você precisava sentir tudo o que estava sendo devastado, para sentir aquele prazer supremo. Você precisava saber o que estava perdendo, para jamais alegar que foi iludido. Não oferecemos o mal numa taça brilhante alegando que é o bem. Oferecemo-lo com o prévio aviso de que é o mal, e de que o preço a se pagar é alto. Gargalhei não porque foste humilhado, mas porque apreendeste a extensão da destruição que ocorreu na tua alma, com a tua anuência. Compreendes agora, Gabriel?

Em parte eu compreendia, e não era necessário verbalizar isto. Lúcifer conhecia os meus pensamentos mais ocultos.

Por que tens medo? É ainda o medo da punição pelo seu pecado? Pois te digo que nunca percas este medo, pois ele erigirá uma nova barreira, para que possas destruí-la no futuro e sentir novamente este prazer inebriante. O medo não trabalha contra o mal, mas a seu favor.

Eu estava muito confuso, e meu corpo já não acompanhava tão bem as minhas ordens, nem meu cérebro conseguia com eficácia navegar através das idéias de Lúcifer.

Antes de ires, contar-te-ei uma história: a de Lilith, que passou pelo mesmo que presenciaste hoje, com a diferença de que ela é um anjo.

Poucos dias depois do meu primeiro contato com o mal, aqueles e aquelas que me auxiliavam começaram a me procurar, pois não retornei à nossa casa, como era habitual, mas permaneci na Terra. Lilith, que era, e ainda é a mais próxima de mim dentre tais anjos e anjas, conseguia sentir a minha energia com mais facilidade, e me encontrou antes que os demais. Ao avistar o prédio, ela se lembrou de que ali era um dos antros de perversão dos mais ignóbeis que a Terra possuía até aquele momento, e acreditou que lá eu estivesse na tentativa de trazê-los para o bem.

Então ele inclinou a cabeça um pouco para frente, colocou a mão no queixo, como se fosse cofiar uma barba que não possuía, e riu discretamente.

Tão inocente, pura e meiga... ah, Lilith, se soubesse o que a aguardava, adentraria aquele antro das trevas? Antes de prosseguir devo contar-te um detalhe adicional: antes de me designarem à missão de vir para este mundo maldito, Lilith e eu já nos conhecíamos. Ela possuía uma infinita admiração por mim, e me amava como um irmão, tudo fazendo para me auxiliar. Sabendo do perigo desta missão, ela quis vir comigo, para que meu coração tivesse onde repousar, ante tantas e tantas adversidades que encontraria aqui.

Posteriormente ela me confessou que antes de entrar naquele prédio funesto, percebeu um torpor na minha energia que apertava seu coração. Quanto mais se aproximava, mais repulsa sentia por aquela energia, ou antes, pela minha energia. Quando me viu, teve dois ímpetos: o de fugir, ante a lascívia e a animalidade da cena, e o de me auxiliar, vendo-me partícipe daquela volúpia. Era uma grande orgia, e eu uivava e me movimentava como as bestas humanas que ali estavam, e só quando me virei para Lilith que ela percebeu que eu estava ali por vontade própria.

Endireitei-me em silêncio, e fui caminhando até ela com a nobreza e a sublimidade de um anjo, que me é peculiar; no entanto trazia no olhar um sentimento diverso do que nutri por ela até ali. Ela tremia, e queria recuar. Ao fitar-me, seus olhos se encheram de lágrimas que não caíram naquele momento. Parei diante dela. Fossem alguns dias antes e ela me abraçaria carinhosamente, e me fitaria com um amor infinito. Mas agora ela estava paralisada de medo, e nada conseguia fazer. Comecei a sentir o prazer antes mesmo de tocá-la. Sentir-lhe o medo causou-me uma sensação torpe que inebriou a minha alma. Não porque queria vê-la sofrendo, mas porque eu percebi a sua fragilidade, e percebi que era necessário protegê-la. Ninguém amava mais a Lilith que eu, e ninguém deveria mostrá-la o prazer, senão eu!

Não chegou a aumentar o tom de voz, mas percebi que ela passou a ser ameaçadora, como se um ente divino advertisse da força titânica de que é investido. Só a energia com que pronunciou tais palavras fez-me tremer de pavor.

Aqueles instantes foram cruelmente prolongados por mim, e quando suas lágrimas começaram a correr, eu as sequei suavemente, e deslizei a mão por seu rosto, como tantas vezes fizera. Ela tremia ainda mais, foi quando aproximei meus lábios aos dela e parei a reduzida distância, e sussurrei: não farei nada que tu não queiras, e nem pedirei que fiques contra tua vontade. Ela tremia e chorava, e não se moveu um único centímetro, nem disse uma única palavra. Assim ficamos por um longo tempo, quando me aproximei vagarosamente, e a beijei com ternura. Eu a amava cada vez mais, no entanto era um amor diferente do que sentira até ali, e aos poucos ela sentiu que seu amor modificava-se também. Parecia ser para ela um processo extremamente doloroso, deixar de ver-me como um irmão, para sentir o prazer que eu a oferecia. Foi um beijo longo e maravilhoso, e assim que me afastei para olhá-la, ela depositou o rosto nas mãos, enquanto continuava a chorar. Eu a abracei, com sua fronte sobre meu peito. Então carinhosamente eu ergui seu rosto, e a beijei novamente. Seus olhos, ainda que marejados, estavam lindos como jamais os havia visto, e inebriado fitei-os por algum tempo.

Inclinei-me, em seguida, e tomei-a nos braços, e docemente eu a deitei no grande tapete em que estávamos, um tapete que a volúpia humana criou para que pudessem praticar suas orgias. Contudo naquele dia não eram suas orgias, mas nossa orgia. E me recordo que após despi-la, diante de seu corpo frágil, trêmulo e belíssimo, senti um ódio infinito dos homens que estavam ali, ao ver como subjugavam as mulheres. Tudo o que faziam, e muitos fazem ainda hoje, era auxiliá-las a erigirem barreiras em suas almas, mas jamais auxiliar para que as destruíssem. Torpes como eram, e como são, julgavam o prazer algo inerente ao homem, e proibido à mulher. Quando vejo tantos de vós usardes meu nome para justificar esta postura hipócrita, fico a me perguntar quem é realmente o vil: quem deseja a liberdade, ou os que desejam suprimi-la?

Todavia, a beleza e a candura de Lilith de tal forma inundavam meu coração, que não havia mais espaço para este ódio. Com as pontas dos dedos, escrevia palavras na linguagem do prazer, ao longo de seu corpo. Sentia trincar as barragens de sua alma, e que paulatinamente o rio do prazer encontrava as frestas. Demolir esse muro ignóbil dava-me um prazer infinito! Sentir que Lilith sentia prazer era o meu prazer!

O olhar de Lúcifer era um paradoxo incompreensível: sedento e bestial como um humano; altruísta e amoroso como um anjo.

Os detalhes do que se passou em seguida deixarei a cargo de tua lascívia e imaginação, seguro de que não será difícil traçar um paralelo entre o que acabaste de sentir com o que se passou com Lilith. Agora vai-te, pois o frio prazer que Lilith recolheu de ti reclama o calor dos meus braços.

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